quinta-feira, janeiro 02, 2014

Desarraigar a Bruxaria

Um pesadelo assombra a Papua-Nova Guiné e seus habitantes. Uma opressão de angústia que os sufoca dia e noite, impede-os de avançar com as suas vidas, estrangula as suas liberdades. Falo portanto da praga de bruxos que devassa a Papua-Nova Guiné. Uma praga que não é recente mas que, a ter em conta as mais notícias que nos chegam além mares, tem vindo a aumentar.

Mas nesta ilha tropical, onde os habitantes vivem em cabanas, existem vigilantes que perseguem bruxos com catanas e machetes. Têm uma moléstia e fazem qualquer coisa para a desfechar. Isto sim é o verdadeiro empreendedorismo. Não é vender no Bairro Alto, camisolas fabricadas na Ásia com uma estampagem qualquer ordinária ou tocar djambé nas ruas da Baixa.

Na generalidade dos casos, quando os apanham, embrulham-nos em folhas de palmeira e metem-nos a assar em fogueiras. Quase sempre comem-nos depois de assados porque a tortura em si, é sempre pouco. O que expõe o principal problema desta solução rudimentar. Não só a carne de bruxo prende os intistinos como, para fazerem face a tantos bruxos, tinham que atear fogo quase a meia Papua. Isto é um problema do sub-desenvolvimento e é nestas coisas que a ONU devia ajudar, a construir cimenteiras para co-incinerar bruxos.

Vigilantes papuásios
Vigilantes papuásios preparados para mais uma caçada ao bruxo.
Os papuásios apresentam pontos de vista bastante válidos para quererem acabar com os bruxos. De outra forma não conseguiriam manter esta nobre nação, um sitio pacífico.

Os bruxos são um problema na Papua mas não são um problema exclusivo da Papua. Todos sabem que os bruxos da Papua assumem variadas formas e feitos, transformam-se desde animais até fazendo-se passar por outras pessoas, é conhecimento do domínio público. O que não sabem é que há bruxos em todos os estados evolutivos de uma sociedade.

E o que é um bruxo, senão mais um aldrabão que quer viver sem trabalhar?

O Governo da Papua tenta revogar estas acções do povo com leis, deixando impunes os verdadeiros criminosos. Não há dúvidas, há uma crença realmente genuína que motiva as pessoas: a crença de que, se os bruxos não forem parados, vão continuar a trazer a morte, a infelicidade, a doença e a pobreza à comunidade.

Afirma-se erradamente que esta escalada de violência não se deve a crenças em magia negra mas sim à inveja económica, nascida de um boom de exploração mineira que ampliou a divisão económica do país e colocou os ricos mais distantes dos pobres. Uma inveja por quem está bem na vida. Muitos dos que são acusados de bruxos na Papua, acumulam cargos nos governos locais com a exploração mineira e têm um elevado estatuto social. Ora alcançaram cargos de poder através do provento da exploração mineira, ora, por terem cargos de poder, chegaram aos lucros da exploração mineira.

Os nossos bruxos, usam símbolos como compassos, aventais e pirâmides com olhos. São, entre outros, Directores Executivos (CEO), Directores Financeiros (CFO) e saltam magicamente entre Conselhos de administração de empresas e altas posições no Estado com uma escandalosa volatilidade e leviandade. Ao menos na Papua alguém tenta fazer alguma coisa com este bruxedo.

sexta-feira, dezembro 13, 2013

Hung'Em Games - Parlamento

Se eu ganhar €100,000,000,00 vem o Estado e fica-me com €20,000,000.00 para se auto-alimentar. Pois bem, eu pegaria noutros 20 milhões e criava uma milícia armada de actuais desempregados com um único propósito: cercar a Assembleia da República. Também pensei em crianças soldado, mas quero ser visto mais como um salvador da Pátria, não tanto como mais um tirano.

Todas saídas seriam prontamente vedadas e pedidos de ajuda impossibilitados. Uma vez entrincheirados no hemiciclo, todos os deputados ficariam automaticamente inscritos num magnífico jogo de sobrevivência. Dos 230 deputados (julgo eu, não me dei ao trabalho de ir confirmar esta ideia), apenas podia sair de lá um vivo se o conseguisse fazer pelo próprio pé. Tudo o que lá se passasse era transmitido 24 horas por dia pelo canal Parlamento, com transmissão gratuita pela TDT. Para animar as audiência, criava um chat interactivo que recebia mensagens por SMS dos espectadores. Numa de recordar os bons tempos do IRC, também conhecido por muitos como mIRC.

Debaixo dos lugares dos deputados, que nem coletes salva vidas, estariam 50 armas dispostas aleatoriamente (com excepção da Ana Drago que teria algemada ao pulso uma marreta de 14 quilos). Engane-se quem julga que as armas trariam vantagem. Seriam armas que nem na Idade Média eram práticas ou eficazes mas, por imposição das regras, os seus detentores eram obrigados a usá-las. Por exemplo:
- Matracas com punhais ao invés madeira;
- Capacetes com chavelhos protuberante mas que dificultem a visão e pesem sete quilos;
- Cadeiras de madeira maciça cujas pernas são espadas;
- Adagas de dois gumes, sem cabo, que teriam que ser manobrada pelas pontas dos dedos no lombo da lâmina;
- Um malho em aço que, de cada vez que é usado, o seu utilizador leva uma descarga eléctrica que o deixa inanimado por um período a rondar o minuto;
- Pistola de carregar pela boca e sem culatra, obrigando quem dispara, a tapar a cara para não ficar cego com a explosão da pólvora. No entanto, não evitaria queimar com gravidade o dedo do gatilho;
- Soqueiras de vidro;
- Etc., a imaginação é o limite.

Capacete de quatro quilos com dificultador de visão activado.
Capacete de quatro quilos com dificultador de visão activado.
Para apimentar os jogos, cada deputado teria uma pulseira com leds que iam mudando de cor ao longo do dia. A cor definia a sua equipa. O interessante desta regra é fácil de alcançar. No mesmo instante que o Nuno Crato estava a abrir a boca ao murro ao Miguel Macedo, a pulseira mudava de cor e eram obrigados a colaborar. É fácil imaginar a cena:
- O Crato ao tentar levantar o Macedo, que agora é da sua equipa, leva com o malho de aço do Jerónimo de Sousa que o electrocuta e caem os três inanimados no chão.

No fim do dia, a equipa que tivesse mais pontos, tinha direito a uma ração de batatas e cebolas. Mesmo que um deputado tivesse estado um dia inteiro na equipa vencedora e, em cima do apito final, mudasse para uma das equipas derrotadas, não comia na mesma. É injusto à primeira vista mas mais não é que muitas medidas impostas à população, a serem concentradas na classe política.

Um tema facilmente extensível a mais, que nos faria sonhar com uma realidade quase utópica.

terça-feira, maio 21, 2013

Plano de Evacuação: da teoria à prática

Muitos planos de evacuação são sugeridos e impostos, poucas oportunidades existem de os evocar, em situação alguma são cumpridos.

Parte I - Da Teoria


Divulgam-se os planos e são efectuados vários exercícios com a finalidade de treinar as pessoas. Marca-se dia e hora para a simulação, fazem-se soar as sirenes. Os delegados de segurança vestem coletes e metem capacetes com cerca de meia hora de antecedência para que o simulacro corra bem, aguardam pacientemente nas escadas do edifício o tocar do alarme de emergência para que a evacuação ocorra sem problemas e imprevistos.

Deixam-se terminar reuniões com gente que se julga importante e só depois se soam alarmes, atrasando toda a brincadeira. Faz-se o simulacro por piso, para não fomentar confusão nas escadas e outros acessos, todos ao mesmo tempo é gente a mais, gera pânico.

Seguem-se então as instruções dos referidos delegados. A massa humana dirige-se aos pontos de encontro através das saídas de emergência mais próximas. Os visitantes continuam acompanhados pelos visitados e tudo corre como esperado. As acções de cada um e o seu comportamento segue em total harmonia com a ISO qualquer coisa.

Outros são informados que não existe necessidade de evacuação total, que os visados serão formalmente instruídos pelas respectivas chefias. Se avivarmos que as ditas chefias são as primeiras a deixar de ser vistas (leia-se "as primeiras fugir para salvar o próprio coiro, qualquer que seja o custo"), então temos já baixas por antecipação.

Não toca o alarme numa das vezes, quando toca avisam que é teste. E se durante o teste há mesmo catástrofe? Tendo em conta que no teste há sempre falha de electricidade e não há gerador a diesel que funcione à primeira, fazendo o cheiro a plástico e metal curto-circuitado cheirar-se a quilómetros, não é difícil.

Todos respeitam um cardápio de normas ISO, mas todas estas ISO são feitas e doutrinadas por gente que nunca praticou nem presenciou uma evacuação séria. Nunca teve que sobreviver a uma qualquer catástrofe. Prova disto é estarem ainda vivos. Em qualquer calamidade eram mortalmente colhidos pelo fatífero pensamento burocrata e sentimento de preeminência intelectual que julgam deter.

Se há características que não definem as catástrofes são a sua consistência, estabilidade e previsibilidade.

Parte II - À Prática


Em caso de verdadeira emergência, com a Terra a tremer e pessoas a gritar em histeria, conseguia esta gente pintar mais depressa as calças de merda, do que vestir um colete sem nele ficar enrolado e nele se sufocar. Quem obrigou o adiar do simulacro pela dita reunião inadiável, achar-se-ia hierarquicamente superior e por certo exigiria tratamento distinto pela frente de chamas que consome o edifício. Por mim, podiam bem ser os primeiros a arder. Ao menos o fogo estava ocupado e não molestava outros.

Se não se pode usar o elevador, como é que se evacuam os aleijados? Jogam-nos pela janela? Ou são encaminhados na cadeira de rodas até junto das escadas “inspire fundo e pense em almofadas” e mal a criatura fechasse os olhos era baldada escadaria abaixo? Consulta-se um bruxo e consoante o seu parecer, as pessoas com deficiências de mobilidade são convidadas a não ir trabalhar nesse dia?

A realidade choca com a teoria. Tudo o que é bonito no conjunto e na imagem, falha no conteúdo a que se propõe. Além do mais está na genética humana, quando em situações de emergência e de elevação de adrenalina, disparar o instinto animal. No instinto animal há o sentido de sobrevivência que é erguido a valores que torna a pilhagem não só aceitável, como obrigatória. Não se pode esperar ordem e coordenação. Em caso de emergência, estamos mais com os pés no lado do tumulto do que na procissão.

Eu a ver-me numa situação de aperto, a primeira coisa que faria seria agarrar num objecto rombo ou pontiagudo. O importante é que seja uma boa e manobrável arma de defesa pessoal. Procuraria um bom agrafador ou o pé de uma cadeira, desde que fossem de metal.

Não se pode descobrir o que provocou a tragédia, pode ser sempre o começo de uma tragédia maior. Por isso é sempre recomendável preparar-nos para o pior cenário, para um mundo pós apocalíptico. Dito isto, não sugiro colher computadores portáteis pelo caminho. Para além de pesados, torna-se difícil o seu transporte em número. Apostar sim em telemóveis dos ditos smartphones. Com quatro ou cinco, para além de caberem todos nas algibeiras sem chatice e alarido, consegue-se um pé de meia para sustentar a nossa família por uns pares de meses. Levar dois portáteis para rua sem ninguém dar conta do espalhafato que é ter um volume rectiforme debaixo da barriga do casaco, é difícil. Muitas vezes com o pânico, continua o rato preso que nos denuncia arrastando-se pelo chão, chamando ainda mais à atenção. Que justificação dar?
A ideia que me fica destes simulacros é que estamos todos a sermos treinados para não sobreviventes.

sexta-feira, maio 03, 2013

Sushi - Um Desconchavo?

Há para aí uma tendência (ou trend, se utilizarmos o americanismo amaricado) para se gostar de sushi. Tendência que é acompanhada pela necessidade de exclusão social de quem não gosta de sushi numa de “faço aos outros o que fizeram a mim”.

Quando alguém não gosta de sushi é tão severamente criticado que acaba por gostar. Não que o paladar se adapte, mas porque as pessoas mentem com receio de mais represálias. Por isso mesmo é que quase toda a gente diz o mesmo “de início detestei, mas depois passei a adorar e é o meu prato favorito de sempre”. Se a Natureza nos mete a não gostar de algo, é porque o faz para representar o perigo de intoxicação. Se é amargoso, pode ter veneno, se é ácido pode estar verde, se está avinagrado, pode estar azedo. São defesas nossas que de tantas encrencas nos têm salvo. Ou seja, não compreendo o que leva as pessoas a insistir comer uma coisa que sabe mal na esperança que venha a saber bem. Quando tinha dois anos, experimentei areia da praia e não gostei. Nunca mais voltei a provar, um ensaio foi suficiente para não voltar a repetir. Se morrerem todas envenenadas pelo sushi, chama-se a isso selecção natural.

Não gosto de sushi. Posso ir mais longe, o sushi não presta. Reconheço que aquilo tem todo o aspecto para ser bom, só que depois não sabe a bom. Ou eu tinha as expectativas demasiado elevadas sobre o termo "sushi é muita bom" e sofri de reflexo condicionado invertido, ou aquilo é uma fraude mas toda a gente tem medo de passar por “fora de moda”(um tipo de o rei vai nu) ou ser apelidado de pobre. Nós pobres passámos muito tempo a comer coisas cruas, não queremos voltar lá. Não querer comer coisas cruas é considerado pindérico e de pobre por contraste com os ricos extravagantes das orgias romanas (um dos sinais da decadência de uma sociedade).

Em caso de obrigatoriedade de se comer sushi, num qualquer evento social com gente dentro (ou in, se, mais uma vez, utilizarmos o americanismo), o segredo para comer aquilo é fazê-lo de boca aberta com a língua recolhida ao pé do badalo para não lhe tomar o gosto.

O sushi está muito ligado ao mundo da moda, porque também ele é um prato da moda. No mundo da moda é prática corrente e socialmente aceite a Bulimia nervosa. Daí não custar nada comer “muito sushi” se depois se vomita tudo. Agora para pessoas de alimento como eu, trabalha muito o estômago.

Se fosse preciso comer este sushi todo para ver o resto, pronto, seria diferente. Havia uma motivação e um objectivo.
Uma vez levaram-me a um sushi dos ditos finos. Não fui ingrato. Agradeci, aceitei e tentei comer. Diz-se, aproveitando a frase do Fernando Pessoa a propósito de um outro produto, que primeiro estranha-se, depois entranha-se. Por isso mesmo repeti duas vezes para ver se a coisa se entranhava. À boleia foi também a vontade de não querer dar nas vistas por a experiência estar a ser menos saborosa do que era suposto. Só depois é que me lembrei que os finos não só não repetem, como deixam restos no prato. Por isso é que gostam de sushi.... por deixarem tudo no prato.

Já fui a outro e gostei porque tudo o que escolhi foi à chapa para fazer... Assim é que é falar!

terça-feira, abril 16, 2013

Bullying Parental

Há dias lembrei-me de um evento ocorrido estava eu no 7º ano. O gordo “fazia” anos e, em mais uma tentativa de fazer amigos e de ser, pelo menos, residualmente popular, convidou os colegas da turma. Finalmente era o centro das atenções, seria aceite e admirado por ser quem é, esperançava ele.

Com tanta gente num evento organizado para culto da sua pessoa, criou-se uma malha de realimentação positiva de nervoseira e histerismo, tão característica em festas com alminhas cuja puberdade ainda é coisa que está a ameaçar aparecer. Quando se é o aniversariante, a amplificação desta malha é gigantesca. Todos falavam a gritar enquanto tinham a boca cheia de porcarias, porcarias estas que eram dispersadas aos grumos em cada gargalhada que era solta sem qualquer constrangimento. Com os parabéns acabados de contar, algo cedo porque havia pais que já lá estavam para ir buscar as criaturas, algo de extraordinário se passou.

No meio da orgia de comida e algazarra, o pai do gordo, também ele visivelmente alterado com a agitação provocada pelo calor do momento, viu como única purga e resolução possível, dar sem qualquer aviso prévio, um estalo audaz e sonoro no próprio filho:

“Cala-te pah! Estou farto de t’ouvir!”

Silêncio total. À frente dos colegas da escola, todos reunidos à volta da mesa, observaram o gordo que tanto se habituaram a gozar, a ser humilhado pelo próprio pai. Fatias de bolo por cortar, gente por servir e o gordo com um sorriso estúpido a tentar ver por entre as lágrimas que lhe enevoavam os olhos sem cair.

No referencial do gordo, o mundo parou. Teve tempo de olhar na direcção de todos, tentando aguentar a expressão do iludido artista cujo espectáculo estava condenado desde a venda do primeiro bilhete. Um espectáculo em que só ele acreditava. Seria precisa a força de mil homens feitos para aguentar aquelas lágrimas. Assim que a primeira caísse. estava carimbado o passaporte para a catástrofe que tanto tentava evitar.

Que berreiro infernal saíram daquelas goelas enquanto todos os amigos se riam dele e o pai ia para o quarto irritado com a situação em que o filho o metera. Nem dos convidados foi autorizado a despedir-se, tal era a quantidade de ranho e baba que saía daquela cara avermelhada do choro e do estalo.

Qualquer percentagem de confiança e auto-estima que o gordo pudesse vir a acumular ao longo da sua vida, foi irreversivel e definitivamente boicotada.