terça-feira, junho 26, 2007

Qualitate Di Vita

Nestas épocas é comum adormecer a pensar "tudo isto para um dia ter uma vida melhor". É algo muito subjectivo e influenciado pelo panorama de vivências de cada um. Uma coisa é certa, não há história de ninguém que tenha alcançado todos os seus objectivos. A ambição não nos permite ficar só com o que temos.

Recentemente, dei por mim a sonhar que era um turra. "Uéte?", questionei-me ainda a dormir julgando que coçava a carapinha com o dedo anelar esquerdo . Sonhei que vivia na margem de um dos grandes lagos africanos. Ou era o Tanganika, ou o Malawi. Não me lembro... a minha memória pós-sonhos não é muito eficaz em pormenores, como se pode confirmar já de seguida.


Eu na piroga.

Apesar de turra, tinha qualidade de vida. Tinha tudo o que era preciso para ser feliz: uma piroga (com um relógio despertador digital na proa que levou a viagem toda a tocar) para pescar podendo, mais tarde, trocar o peixe por carne, por milho ou por missangas e conchas para fazer colares muito bonitos.


Os colares em missangas e conchas.

Também possuía uma acolhedora cabana com as minhas três mulheres (uma para cada testículo segundo os princípios da tribo local), uns poucos filhos e, acima de tudo, um tambor de três metros de diâmetro para os rituais de lua cheia. Não percebi porque tinha tanto orgulho no relógio despertador digital mas, pode estar explicado o motivo de ter adormeci no dia do sonho.




As minhas três lindas mulheres na nossa cabana.




Os meus rebentos todos juntos para a fotografia tirada pelos senhores que vieram fazer um documentário sobre qualquer coisa sem importância.


Era uma vida em perfeita harmonia com a Natureza e sem inimigos. Apesar da vastidão das terras, não havia espaço para desentendimentos. Tinha feito as pazes com os poucos inimigos que tive. A melhor forma que encontrei para ficar tudo resolvido, foi dar-lhes onze (quem diz onze... também diz doze, não era por aí que não ficávamos todos amigos outra vez) catanadas à traição, atirando-os de seguida aos crocodilos que também têm direito a comer.



Crocodilos saciam a fominha.

Um outro vizinho menos harmónico com os demais, acabou harmonizado (para apanharem a simplicidade desta piada, harmónica é um acordeão pequeno e atarracado (apesar de também poder ser uma gaita de beiços, sem duplo sentido)) ao ser atropelado por dois elefante (que foram soltos sem querer e apedrejados e chibatados para correrem desgovernados naquela direcção). O pobre Maló, durante a trágica mas curta fuga, ainda tentou dar uma moeda a um elefante para o ver tocar no sino com a tromba mas, este não tinha sido ensinado.

Os dois elefantes e o Maló no meio.


O homem do barro foi devorado por sete hienas que estavam de passagem e, ao ver uma presa inerte e balofa, o confundiram com a carcaça inchada de um gnu deixada ali pelos leões.


Hienas devoram os restos do "barroso".

O único com quem tive alguma dificuldade em fazer as pazes foi com o mais sub-nutrido e esquizofrénico de todos os habitantes da nossa sossegada aldeia de pescadores. Era conhecido por "O Fininho" por a magreza se destacar dos demais. Irei omitir a fotografia para não chocar os mais sensíveis. Em alternativa meto a do meu primo Vergílio que está bem na vida, comprou uma piroga com motor. Ele é motivo de orgulho de toda a comunidade.


Primo Vergílio na sua piroga a motor.


Com o fininho foi uma carga de trabalhos.

O fininho era um bocado paranóico por estar sozinho na cabana, mas as regras eram bastante claras e eram para todos. Ao longo dos anos, nunca teve direito a uma única mulher no "Dia Da Sagrada Apalpação", mesmo aguentando-se até ao fim sem exprimir qualquer dor (não tinha nada para aleijar, é óbvio que aguentava a dor que não podia ter).


Este dia cheio de rituais, para todos aqueles que não o sabem, é o dia da atribuição, ou renovação, da quota anual de mulheres por homem.


Os mais jovens no ritual de iniciação.

É um dia que começa bem cedo para todos na aldeia. Os homens que se submetem ao apurado exame procuram canas de bambu junto ao rio, para protegem o seu talo do mau olhado. Perfuram transversalmente a cana numa das pontas, por onde fazem passar uma guita e, depois de colocado o tarolo na protecção a partir da ponta contrária, ata-se a guita à volta da cintura.


Eu já preparado para a cerimónia.


A partir daqui só nos resta esperar as restantes horas em pé, de braços até aos cotovelos (que estão dobrados num ângulo de 90 graus) ao longo do corpo , punhos serrados com as costas das mãos voltadas para o chão, pés afastados em paralelo, joelhos semi-flectidos e, de tomates descaídos, fitamos com enorme concentração, com uma das vistas palpitantes, o horizonte longínquo (há quem coloque uma fita à Rambo na testa para ver se ajuda a conter o sangue na moleirinha) em busca de inspiração e força.


A malta reunida em amena cavaqueira.


Como é algo muito sagrado, só me é permitir mostrar fotografias nossas momentos antes do importante acontecer.



E aqui reunidos antes de cumprir o nosso dever para com a aldeia mas sem conseguir esconder algum nervosismo.

Este ritual efectuado pelas mulheres mais velhas e de mãos mais calejadas e brutas de tanto arremessarem o malho contra o balde para amassarem mandioca, era executado com a seriedade e precisão de um artista de circo. Sobre a supervisão do feiticeiro, massajam, como quem tempera um quilo de febras para assar ou espreme limões, uma pomada na bolsa da fertilidade do homem. Tem como finalidade contar o números de tâmaras que cada homem tem. A pomada, à base de banha, alho, uma folha de louro e muito sal grosso, é feita pelo curandeiro da tribo. Muitos são aqueles que, devido à natureza violenta do procedimento e por estarem na mesma posição há demasiado tempo, lhes fraquejam as pernas e desmaiam de imediato como quem tem um ataque epiléptico fulminante. Caiem no chão totalmente desamparados e com todas as dobras esqueléticas totalmente torcidas em dor.


Os sacerdotes encontram-se reunidos a encetar a cerimónia.


Nunca foi encontrado nenhum "motivo" no fininho para ter direito a uma mulher que fosse. Acabou queimado acusado de bruxaria numa tribo pouco permeável a outros ritos que não a feitiçaria. Isto apesar de não ter feito o quer que fosse para tal, mas dizer-se homem sem nada para o provar, é porque a criatura é do mais falso que há. Mais vale queimar que remediar.


Preparação da fogueira para imolar o fininho.


Finalmente a minha terra era pacata. A única preocupação que nos assombrava eram os hipopótamos. Mas graças aos ensinamentos do Ah-Hremindo, senhor do Além Tejo, não era problema de maior. Ele sabe que os hipopótamos só atacam se não conhecerem a pessoa, ora como nós éramos todos iguais, desde que não variássemos muito o padrão do pano para cortinados usado nas nossas vestimentas, não havia problema.

O Ah-Hremindo faz criação de hipopótamos para contrabando.


A cultura de hipopótamos do Ah-Hremindo.

Vende-os aos amarelos como se fossem carne de baleia. Isto tudo através de Espanha. Assim não só foge ao penoso imposto português como ainda recebe o subsídio espanhol para jovens criadores de paquidermes aquáticos (ou seja, um cetáceo) de pequeno porte para fins alimentícios. Os espanhóis têm subsídios para tudo, nós temos impostos para tudo... estamos em pé de igualdade em termos de desenvolvimento.






É-nos difícil voltar a viver em mundos tão simples e puros.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Κολοσσού της Ρόδου - Colosso de Rodes


Acabrunha-me a ignorância e cultura de muitos que se dizem "gnurantes" e cultos. Para melhorar o Mundo (eu penso sempre através da grandiosa Dimensão Benfica), sinto-me obrigado a preencher certas lacunas (salvo seja), com bens tão preciosos como o conhecimento e a sabedoria.

Solto duas simples perguntas para agitar um pouco a inércia mental daqueles para quem a Natureza foi madrasta:

Quem ou o que foi o "Colosso de Rodes"? Como seria realmente chamado pela população e qual a sua verdadeira função?

Começo por recordar as voluptuosas figuras femininas que se colocavam na proa das embarcações. Segundo muitos, era para dar sorte aos navegantes, servir de aríete para afundar navios inimigos ou, entre muitas outras hipóteses, para os marinheiros, longe do conforto e abrigo dos telhados das suas casas, terem com que contar telhas durante as viagens mais longas e desgastantes, evitando assim o contratempo de atracarem (aonde tivesse que ser, isto de hormonas com escorbuto é uma mistura extremamente perigosa que leva muitos à loucura) ou terem que ir a terra para cronometrarem a sua prestação com uma clepsidra.

Tirando a última das possibilidades, a de comburente para remar com a batuta, todas as outras não poderiam estar mais erradas.

Para quem não sabe, clepsidra é um relógio de água. A sua origem remonta (aqui o termo "remonta" pode ter vários sentidos, todos eles válidos, tendo em conta o assunto em questão/debate) aos tempos babilónicos (a Babilónia nada tem a ver com isto, mas o termo soa bem) em que uma rameira grega de nome Klepsýdra, com vista a rentabilizar o seu negócio, inventou este simples mas engenhoso dispositivo para contabilizar eficazmente o tempo de "serviço" dos seus clientes. As primeiras versões não passavam de um copo com um pequeno buraco no fundo, posto a flutuar numa terrina com água (a mesma que era usada para rociar as partes decadentes após o banquete). Assim que a água engolisse o copo, a franquia a cobrar passava para o escalão seguinte, mais caro no total, mas com uma relação preço tempo de "utilização" mais em conta para atletas de fundo.

Os que tentavam fazer render os sestércios ou tinham o cobre à mingua, eram agora obrigados a vazar sem demora. Dando lugar a um dos muitos que aguardavam impacientemente um atendimento que, segundo o slogan iluminado com lamparinas de azeite, colocado à porta de entrada do estabelecimento, era de máxima discrição e sigilo.

Klepsýdra não ganhou nenhum prémio com o seu invento, mas facturou (nos vários sentidos da palavra) a dobrar. O seu nome, como "profissional" que era no seu ramo, certamente seria esquecido. Segundo consta nas escritas, aquela geringonça não caiu muito bem no meio dos seus frequentadores. Tratando-se de uma profissão que nunca se extinguiu, existe desde o início do Início, a invenção tem passado pelas gerações de "profissional" em "profissional". Algumas permitiram uma fuga de informação e o segredo passou também para alguns homens, geralmente os filhos. Alguns, sem terem mais nada para fazer, acabaram por ser meus professores.


Por explicar fica o facto histórico de os franceses não terem figura feminina nos barcos e davam-se muito bem com longas estadias em mar alto. Como satisfaziam qualquer necessidade hormonal que viesse para atrapalhar?


Agora, que mais de metade dos leitores (como se isto fosse lido por todos ao mesmo tempo) já se dispersou e foi À procura de pornografia na Internet, é a altura pertinente de perguntar qual a relação existente entre o Colosso de Rodes e as figuras femininas nos barcos?

Pois bem, as tais imagens eram a senha de entrada para o porto da ilha grega Rodes. Era essa mesma senha que "activava" o Rodes.

Rodes, de costas meio arqueadas, mãos nas ancas e de águia ao peito, ao ver as reluzentes e bordajonas figuras femininas nos barcos, ficava entusiasmado que nem King Kong para Ann Darrow.

Um escamartilhão em cobre com núcleo em aço de tamanho tenebroso, parte submerso parte exposto, era a barreira intransponível que fazia a filtragem dos navios que entrariam no porto.

Um ininterrupto guinchar ensurdecedor do metal a vergar vindo da verga metálica, dava início à abertura da entrada no porto

Uma palpitante e assombrosa trave ficava em riste, autorizando a entrada na baía portuária. A sombra originada era tão vasta e extensa que diminuía a temperatura da água a ponto de provocar a migração das espécies da região cada vez que o porto se abria..


Quando o portal estava "armado" era um poleiro de luxo para muitos pássaros, quando estava em "guarda" era algo impossível de trepar (a escolha desta palavra não é de todo inocente), até para o mais arisco e teimoso dos esquilos.

Muitos, pelo fraco potencial da figura que transportavam (falsificações na maioria dos casos), viam as suas embarcações afundadas por não aguentarem a sebe fálica no ar o tempo suficiente para conseguirem passar. Ora morriam esmagados pelo cair do malho em cima, ora eram afundados pela onda de choque provocada pelo impacto na água do rápido decaimento daquela barreira levadiça.


Porque motivo Rodes ruiu? A versão do terramoto que vem na História não passa de uma pequena invenção para encobrir a civilização "grega" do escândalo a que estaria sujeita, anos mais tarde, com o aparecimento da inquisição. Assim o abalo sísmico era como que um castigo dos Divinos (na altura eram todos politeísta, até os ateus o eram).
Entendidos na matéria dizem que o seu desaparecimento se deveu a um Inverno mais rigoroso que permeabilizou a invasão romana. Um corrente de água fria permitiu que a entrada do porto ficasse a descoberto, reduzindo o "colosso" a uma mera coluna do estilo jónico.

Nem a mais fogosa das figuras de um barco conseguia meter Rodes operacional. Os romanos, cientes da oportunidade, aproveitaram e fizeram História.

Com a sua virilidade reduzida a tão pouco, Rodes encontrou o desequilíbrio, tombando de costas. A sua hegemonia durou 56 anos.

Findo assim mais um post que não podia ser curto dada a matéria abordada. Tira-se a conclusão que o verdadeiro nome, foi durante muito tempo, "O Colosso do Rodes", por o "colosso" ser o dínamo do Rodes.

segunda-feira, janeiro 01, 2007

Persona Mundu

Perguntei-me a mim mesmo várias vezes e ao longo de uma ternidade (só não foi durante uma eternidade porque não sou eterno, logo foi durante uma ternidade, não tenho culpa que os dicionários ainda não tenham a palavra), qual será o homem mais culto do Mundo? Que entidade terá um tão vasto e profundo conhecimento das coisas e do Universo que lhe confira este título?

Pois bem, se vos inquieta a mesma dúvida, não se chaguem mais na busca da resposta... só pode ser um o escolhido: Eládio Clímaco

Este homem narrou tantas horas de documentários televisivos que seriam precisas duas vidas inteiras para os conseguir ver a todos de seguida. Tem uma sapiência tal que nem o mais instruído e marrão dos catedráticos o poderia superar.
É poético o contraste entre a violência visual explícita do festim sexual de uma numerosa "sociedade" de Bonobos com a delicadeza e romantismo do discurso do orador.

Chamo-lhe homem no sentido figurativo porque está muito para além disso, é um cavalheiro à antiga, de uma extrema cortesia e educação. Quem nunca se inspirou na sua galante lábia para abordar a elegida? Eu já e nunca resultou...


Mas ainda há uma arma secreta para arrasar a concorrência (os que arrumam livros nas bibliotecas ou os tipógrafos podem ser um exemplo válido). Um trunfo com poder de fogo inigualável, o Eládio Clímaco possui um curriculum invejável (diria mesmo inalcançável) de anos a apresentar os Jogos Sem Fronteiras.

Que saudades de ter a família toda reunida a assistir aos Jogos Sem Fronteiras que até tinham direito ao Hino da Eurovisão?

Momentos de pura magia e arte vinham daquela caixa que naquela altura ainda transmitia (apesar da "culpa" ser do tuvisor) a preto e branco em muitos lares portugueses...

Isto da televisão a preto e branco tem várias implicações: a mais óbvia é que sou um ser já meio antigo e datado a ponto de ainda ser do tempo da televisão a preto e branco (é uma Era perigosamente perto da Era pré-electricidade) e a menos proeminente (porque muitas vezes não se dava por isso) era estarmos a torcer pelos espanhóis e a festejar quando um português se escalavrava todo nas bordas de uma piscina convencidos que estávamos que era de um espanhol que se tratava.

Mesmo assim Portugal é o segundo país com mais vitórias nos Jogos Sem Fronteiras com 5, precedidos da Alemanha com 6. Os espanhóis, até mesmo com alguns portugueses a torcer por eles, apenas conseguiram uma vitória. E depois Espanha é mais desenvolvida que Portugal... haja paciência.

Lembro-me do nome dos Juízes Internacionais, o Gennaro Olivieri e o Guido Pancaldi, mas não me lembro do "homem do apito": "Atoncion! Demi, pré?" e o homem lá dava início à prova.


Claro está que ser o mais culto do Mundo não faz dele o mais respeitado e admirado do Mundo. Refiro ao nosso tão querido Júlio Isidro. E digo nosso porque todos nós temos um cantinho especial no nosso coração guardado para o Júlio Isidro (desde que descobri que ele é meu vizinho em Almoster que vou para lá sempre com a esperança de me encontrar com Sua Magnanimidade).

Se houvesse um combate entre o Júlio Isidro e Eládio Clímaco, apostaria toda a minha fortuna no primeiro... o juiz desta partida única seria certamente o Nicolau Breyner e a menina da placa com o número do round só poderia ser a grande Rosa Mota. E digo única não só pela singularidade dos atletas de elite em causa, mas por ser um combate até à morte, como os gladiadores no Circus Maximus. Não pela mera crueldade do espectáculo, mas por imposição da lei da sobrevivência imposta pela cruel Natureza. A Terra é pequena para a coexistência destes dois titãs.

O hino de entrada na arena ainda não está dado como certo, mas possivelmente será um épico do Avô Cantigas ou dos compositores da música da Rua Sésamo.

sábado, outubro 21, 2006

Baccalaureu Monarcha

No Domingo passado almocei bacalhau cozido com grão.
Se na Terça-Feira não tivesse jantado favas com entrecosto, certamente que hoje já estaria na fase terminal de uma recuperação, cuja terapia, tem na comida da cantina os seus alicerces mestres.

Como almocei e não apenas comi, implica que no prato, juntamente com uma generosa posta de bacalhau (esse espantoso mamífero que habita as vastas planícies tropicais da Noruega), acompanhada de um frasco de grão, estaria uma bela malga de cebola, alho e coentros. Implica igualmente que todo o processo de vitaminação não poderia demorar menos de uma hora. Como estava com alguma pressa, os outros presentes só comeram e não almoçaram (passando em claro o saborear da dádiva dos deuses), almocei em apenas uma hora e dezassete minutos. Imperdoável. Podia dar-me alguma congestão por almoçar tão depressa, e ter que comer macrobiotica para o resto da vida. Irra... antes ter amigos pretos (tenho a absoluta certeza que, apesar de estar a dizer explicitamente que gostava de ter amigos de origem e cultura africana, virá, algures das profundezas infernais mais refundidas, alguma alminha só para me dizer que foi um comentário racista, vai-se lá conseguir compreender gente tão mesquinha).


Mal dei a última garfada, fui invadido por uma soneira daquelas que só me dão em aulas notavelmente massadoras (cheguei à conclusão, até ilações contrárias, que se trata de um novo tipo de jetlag, em que tudo ocorre por ordem inversa. Primeiro fico com o sono trocado e só depois sinto que estou noutro local com um fuso horário diferente daquele a que o meu relógio interno se havia habituado, acordo, abrindo os olhos des-sincronizadamente tentando convencer-me que nem sequer cheguei a adormecer, sem saber bem aonde e quando estou a fazer o quê, processo acompanhado por baba até aos queixos).


Derreado por uma refeição demasiado copiosa, abandonei-me às delícias duma sesta tão reparadora como imprudente... acordei com aquilo a que se chama de mau feitio (estrondosos choques atmosféricos provocados por diferenças de pressão normalizadas abruptamente).

Para aperfeiçoar a situação, que por si só já tinha bastante de excêntrico, notei que estava com hálito a alce (que como todos sabem é o macho da rena). Daqueles que puxam o meio contentor pré-fabricado (uns chama-lhe trenó, mas trenó é um nome meio afifizinhado de origem francesa) do pai natal verdadeiro. Esse velho bêbado, careca e tarado por crianças. A comunicação social é que adultera e corrompe a realidade, como sempre o faz com tudo, no sentido do maior lucro em publicidade. Propaga uma boa imagem desta sinistra entidade que passa um ano presa e mal sai em liberdade condicional é logo apanhada a aliciar crianças... e ainda há o descaramento de se transmitir tudo na televisão como algo de muito bom e positivo, provocando grande entusiasmo entre os mais pequenos. Como se não bastasse toda a divulgação em torno da coisa, também os pais incentivam os filhos a aceitar este malfeitor em suas casas - "Se não te portas bem o Pai Natal não te traz prendas". Não deveria ser ao contrário? "Olha que se voltas a meter mais uma vez o sacana do gato pendurado no estendal, comes um par de estalos (é coisa de se comer, porque almoçar um par de estalos era bastante mais demorado e aborrecido, com burocracias penosas para ambas as partes envolvidas) e chamo o Pai Natal cá a casa para ele te trazer prendas. É isso que queres? Depois não te queixes que ele te senta de barriga para baixo". As alternativas usadas até agora não têm sido, pedagogicamente, as mais correctas. Estar sempre a usar a entidade "o velho" ou "o polícia" só faz com que não se fique indiferente a estas duas distintas figuras, especialmente quando apanhamos os primeiros a conduzir em contramão na autoestrada porque se confundiram com o caminho.

terça-feira, setembro 19, 2006

Sacrificiu di Pixe

Fui à pesca.

Já se sabe como são estas coisas de ir para a pesca. Mas, para quem não tem ideia como é um dia normal de pesca, vou deixar aqui o breve relato de como tudo se passou.

E digo normal no sentido de "não-homossexual", que é como quem diz, ir para Belém às dez da manhã num Domingo de Sol ameno.

Éramos vinte homens e fizemo-nos ao mar, a partir do Cabo da Roca, às duas da manhã. A forte chuvada que se fazia sentir, já permitia adivinhar que nem tudo poderia correr bem, como seria desejável. A traineira, Virgem Santíssima Dos Milagres, tornava a concentração necessária para a pesca (concentração para se pescar apenas o peixe graúdo e não apenas coisa miúda, um puro maxú pescador tem ao seu alcance tal faculdade para pescar o peixe pretendido, bastando concentrar-se a olhar para a bóia. Consegue discernir o tamanho do peixe e escolhê-lo apenas com o pensamento.) algo complicada devido às violentas oscilações inerentes ao seu pequeno tamanho em tão agitado mar.

Achámos por bem cada um meter um cinto de chumbo à cintura para estabilizar a embarcação. Este procedimento é em tudo idêntico ao daqueles franceses, o Thierry Beille e a Corinne Gaspar a bordo do trimeran Intermezzo, como só meteram um tripulante com cinto, quem o tinha, tinha que estar atado ao centro da embarcação. Isto para evitar que ele andasse solto de um lado para o outro, seria pior a emenda que o soneto (nunca percebi esta expressão "pior a emenda que o soneto", estou aberto a explicações). De outro modo não compreendo a necessidade de atar as mãos a um homem e meter-lhe chumbo à volta da cintura. Os sinais de violência física, não o são. Trata-se apenas de pequenas porradinhas técnicas para homogeneizar a irregular distribuição mássica do André Le Floc'h. Estes franceses só comem porcarias, ficam anafados e depois queixam-se quando é preciso fazer um insignificante esforço físico.

Como, apesar dos esforços, o dono do trimeran não ficou calibrado, o veleiro acabou por se virar.

Continuando...

Com o barco estabilizado, há que pagar ao Deus dos Mares para que Este abençoe a nossa pesca. Não é um deus qualquer, é um deus à antiga, que exige sacrifícios. Por isso mesmo um dos tripulantes da traineira, embora desconhecesse a sua finalidade, não era mais que uma oferenda ao deus Aphyosemion, um deus cuja era de hegemonia foi o Cetáceo.

Degolámos o convidado de menos confiança, alguém capaz de ver um porco valente a ser assado num espeto e optar por comer um hambúrguer, por mero exemplo. Seguiram-se as rezas deste ritual:

"Ah pêxe dum queabrão, estais fedidos filha da putha!" Disse o sacerdote Paulinho enquanto olhava para o mar com um sorriso vidrado de gozo e satisfação.

E atirámos a oferenda ao altar, o mar, como se de engodo para peixe se tratasse.

Apenas sobraram as orelhas, que as havíamos guardado como isco para serem colocadas no anzol posteriormente.

"Agora com o ritual concluído é só apanhar peixe", pensámos.

Ao que parece a oferenda não foi do agrado de Aphyosemion. Sentiu-se bastante lesado e enrolado com esta troca, deste sacrifício em particular por peixe, e foi a partir deste momento que o divino castigo começou...

Dois acabaram-se ao mesmo tempo. Um cuja mulher tinha dado à luz gémeos mulatos, quando ambos os pais são brancos a ponto de se lhes verem as veias e artérias na cara e nos membros, e outro cuja vizinha tem um miúdo que está a ficar parecido com ele, vizinha essa que está casada com o padeiro. Despediram-se do resto da tripulação, foram comprar tabaco e nunca mais voltaram ao barco (estranho é que nenhum dos rapazes fumava).

Um outro meteu a cabeça dentro da água do mar a ver se via algum cardume de tamboril (tinha uma visão muito apurada) e acabou colhido por um espadarte que lhe confundiu a cabeça com um melão, e todos nós sabemos que o espadarte é doido por um bom melão.

O seguinte ainda tentou agarrar o anterior pela cintura para o salvar, mas levou um chuto à Kikin Fonseca no "assunto", perdeu os sentidos e também caiu borda fora. Antes extinguir-se no oceano devorado por uma fera do mar a ser agarrado pelas ancas por outro homem.

Outros quatro lançaram-se à água para apanhar um búfalo marinho (como qualquer homem minimamente homem e que se diga homem sabe, quando alguém se atira ao mar para apanhar um peixe à mão, não o tem que dividir pelos restantes membros da embarcação, pode ficar com ele todo ou repartir por quem o seguiu). Para não estarem armados em finos com esta técnica de "não-partilha", mudámos a rota e eles lá acabaram por desistir de dar aos braços e entregaram-se ao infortúnio da vastidão marítima.

Sete lançaram-se, mais uma vez, em busca do peixe para "não-partilha" e tiveram um fim curioso. Então não é que uma baleia azul os confundiu com bóias do ZooMarine de Oliveira de Azeméis, onde tinha estado encarcerada perto de vinte anos de forma ilegal? A marota, no engodo de receber uns amendoins lançados pelas crianças para a água, tal como lá no ZooMarine de Oliveira de Azeméis (até nisto se vê a crueldade destes parques aquáticos... toda a gente sabe que quem come amendoins é a foca, não é a baleia... cambada de bárbaros) lançou-se a toda a velocidade, nadando para a superfície como se de uma prova olímpica se tratasse. Abanando a sua cauda freneticamente e com desmedida ferocidade, avançou com um ímpeto impressionante e deveras assustador.

A graciosa criatura do Cetáceo (considerada filha de Aphyosemion, e referido muitas vezes como "cetáceo" numa evidente mistura absurda entre ciência e teologia) de quatrocentas e dez toneladas, surgiu à superfície quase na vertical mostrando os seus quarenta e sete metros, virou-se de costas para, em cima dos surpresos e incrédulos pescadores (vistos como meras bóias), fender as ondas com um impacto ensurdecedor, podendo mesmo ser visto como um enraivessido bramido de Aphyosemion. Caiu uma intensa chuva de salpicos por mais de doze minutos.

O último a findar-se, só porque pescou um golfinho bebé para dar gosto à salada (fica melhor que pimentos, para acompanhar sardinha assada) foi trespassado por um arpão lançado de um barco desses selvagens da Green Peace. Primeiro proíbem-nos de apanhar cachalotes que a tanto esquimózinho matou fome, agora isto. Não há direito...

Estranhamente não foi avistado nenhum tubarão. É costume neste tipo de tragédias aparecerem sempre tubarões para "acalmar" os ânimos dos mais agitados... acalmam os ânimos, as pernas, depois os braços, um bocado da bacia, uma omoplata, hande-soy-óne...

Acabámos por sobreviver só três, eu, o Zé o Grande e o Paulinho.

Eu não me perdi na imensidão dos oceanos porque o Zé o Grande me prendeu pelos pés, na parte de fora da pequena embarcação, convencido que todas as vezes que fui à água era em busca do peixe para "não-partilha" (muita gente estiola-se com este tipo de pesca, pode-se dizer que é a mais perigosa).

O Zé o Grande porque foi o que tinha dado mais pelo aluguer do barco (deu um garrafão de vinho lá da terra, apanhar e pisar a uva custa) e não estava ali para sair a perder.

Finalmente o Paulinho porque não sabe fazer contas. Se somarmos os que morreram e os que sobreviveram não dá os mesmos que entraram dentro do barco (não sei bem em que medida é que isto o salvou, mas que o que é importante é que ele se esquivou da morte). Talvez tenha sido da lenga lenga, que repetia incessantemente, lhe tenha evitado o mau olhado: "Ié ié ié Alfama é que é! Schupa..."

Finalmente após apearmos o barco em porto seguro, decidimos ir assentar ideias e reflectir sobre o sucedido para perto de uma barragem (a qual abandonámos junto das oito da noite, e não antes das três da tarde, isto aonde nem sequer a água estava morna e nem eu de fato de banho, já para não falar na densidade de população feminina com ar entre o "Muito" e o "Bastante" saudável que lá nos poderia prender). Para tentar esquecer tudo o que sucedeu de menos agradável, fomos para Torrão, próximo de Alcácer do Sal.

Espero que este relato não interfira com o tratamento psiquiátrico que os sobreviventes estão a ter, ao recordarem tudo pelo que passaram e sofreram. Felizmente sei manter um afastamento saudável disto dos traumas e não preciso de ser acompanhado. O Zé o Grande nega tudo o que se passou, ficou meio apanhado com a coisa com certeza.

As poucas memórias que os outros dois sobreviventes ainda mantêm, estão escritas a partir daqui.

Ainda não eram sete e meia da manhã e estavámos a comer uma bifana e a beber um small laranja f'esquinho, enquanto o resto dos choninhas do café bebiam uma meia de leite com uma torrada seca sem manteiga (já comi torradas secas e tinham manteiga). Lá seguimos para o local de pesca, desta vez com os pés em terra firme e sem sobressaltos.

Curiosamente, o menos experiente nestas andanças, eu, apanhou o peixe maior. O seu tamanho ia quase de margem a margem, só o deixei ir porque não cabia no carro e era um incómodo trazê-lo.

No fim pesei quase oitenta quilos de peixes (a balança marcava em potências de 10). Para grande parte nem foi preciso isco. Foi só lançar o anzol com uma chumbada e o peixe mordia na mesma.

Dei por findado o atribulado dia de pesca.

Com isto tudo se pode concluir que tanto o espadarte como a baleia são ambos peixes meio vesgos. Já vários charlatões afirmaram que a baleia é um mamífero... coisa mais estúpida! Vamos lá encarar os factos: se nada e vive dentro de água, é peixe! Tal como tudo o que voa é gaivota, quer seja uma abelha (por isso não há que ter medo de abelhas, não passam de gaivotas recém-nascidas, são inofensivas. Quem é que tem medo de gaivotas? O único perigo que uma abelha adulta/gaivota matriz (ou gaivota gaivota se quiserem, a gaivota original como muitos leigos a conhecem), representa para a Humanidade é quando estamos deitados à beira mar e aos olhos delas, não passamos de cadáveres que deram à costa. A gaivota, como necrofago reconhecido que é, começa a depenicar-nos os olhos, nariz e os ouvidos, certas que estão de se tratar de um corpo pálido e inanimado, inchado pelos gases da decomposição interna que no nosso âmago ficam retidos (por fora estamos conservador pelo sal da água do mar). Conclusão, apenas os gordos são atacados por abelhas (por ridículo que pareça, na imagem mental das gaivotas, são idênticos a cadáveres inchados). Nunca se viu nenhum recordista, daqueles que carrega quilos de abelhas agarradas ao corpo, gordo, pois não? E os gordos tinham vantagem por terem mais área para as abelhas se agarrarem.), um morcego ou mesmo um macaco que caia desamparado de uma árvore, são gaivotas. Apenas os animais terrestres têm duas categorias: ou são porcos, ou são cavalos. Acho, embora não tenha a certeza, que há quem esteja convencido que os pinguins existem... Lamento informar que não passam de um mito fantasiado pelos tótos dos computadores.

É importante esclarecer as pessoas.