sexta-feira, março 26, 2021

A Prova Pueril

Há dias, enquanto dialogava informalmente com uma insónia, lembrei-me de dois colegas do 6º ano: o Marco e o Rui.

O Marco tinha um método imbatível para terminar as lutas no recreio, enchendo gratuitamente ambos os participantes de porrada até o festival acabar. Quer por desistência dos combatentes. Quer por intervenção externa (funcionárias da escola, popularmente chamadas de contínuas). Quando alcançasse a idade exigida, era sua obsessão ter uma Kawasaki Ninja verde, cor alinhada com a sua tendência clubística, outra das obsessões.

Ao Rui, como tinha óculos da marca Galileu, chamavam-lhe Galileu. Lógica simples. Não subtraía trocos aos colegas por uma questão de ética inconsciente. Embora, por mais que uma vez, a tentação tivesse levado a melhor, vendo-se inoportunamente na pose de pertences que a ele não lhe pertenciam. Chegou também a gravar tentativas de “apontamentos” para ouvir no Walkman em pleno teste. Um fiasco.

Ambos apresentavam com orgulho um ligeiro buço e partilhavam a qualidade de repetentes. Como eram mais velhos, inferia-se que existiam certas matérias da vida nas quais eram especialistas ou experimentados. Ora, algures naquelas cabeças, essa expertise tinha de ser concretizada com uma nota apresentável no teste de Ciências da Terra e da Vida (CêTêVê), quando se passou pelo capítulo respeitante à reprodução sexual. O desempenho no dito teste foi positivo, porque "fiquem lá vocês com os números que de ғоdɑ e de соnɑ percebo eu…". Foram ovacionados por até nos termos androceu e gineceu terem acertado.

Depois deste sucesso e a validação perante os colegas alcançada, voltaram ao ciclo de cábulas onde o êxito lhes era esquivo. Ser repetente também dava um certo estatuto na escola. Um estatuto pouco recomendado e de respeito fugaz pois iam ficando para trás.


quinta-feira, janeiro 02, 2014

Desarraigar a Bruxaria

Um pesadelo assombra a Papua-Nova Guiné e seus habitantes. Uma opressão de angústia que os sufoca dia e noite, impede-os de avançar com as suas vidas, estrangula as suas liberdades. Falo portanto da praga de bruxos que devassa a Papua-Nova Guiné. Uma praga que não é recente mas que, a ter em conta as mais notícias que nos chegam além mares, tem vindo a aumentar.

Mas nesta ilha tropical, onde os habitantes vivem em cabanas, existem vigilantes que perseguem bruxos com catanas e machetes. Têm uma moléstia e fazem qualquer coisa para a desfechar. Isto sim é o verdadeiro empreendedorismo. Não é vender no Bairro Alto, camisolas fabricadas na Ásia com uma estampagem qualquer ordinária ou tocar djambé nas ruas da Baixa.

Na generalidade dos casos, quando os apanham, embrulham-nos em folhas de palmeira e metem-nos a assar em fogueiras. Quase sempre comem-nos depois de assados porque a tortura em si, é sempre pouco. O que expõe o principal problema desta solução rudimentar. Não só a carne de bruxo prende os intistinos como, para fazerem face a tantos bruxos, tinham que atear fogo quase a meia Papua. Isto é um problema do sub-desenvolvimento e é nestas coisas que a ONU devia ajudar, a construir cimenteiras para co-incinerar bruxos.

Vigilantes papuásios
Vigilantes papuásios preparados para mais uma caçada ao bruxo.
Os papuásios apresentam pontos de vista bastante válidos para quererem acabar com os bruxos. De outra forma não conseguiriam manter esta nobre nação, um sitio pacífico.

Os bruxos são um problema na Papua mas não são um problema exclusivo da Papua. Todos sabem que os bruxos da Papua assumem variadas formas e feitos, transformam-se desde animais até fazendo-se passar por outras pessoas, é conhecimento do domínio público. O que não sabem é que há bruxos em todos os estados evolutivos de uma sociedade.

E o que é um bruxo, senão mais um aldrabão que quer viver sem trabalhar?

O Governo da Papua tenta revogar estas acções do povo com leis, deixando impunes os verdadeiros criminosos. Não há dúvidas, há uma crença realmente genuína que motiva as pessoas: a crença de que, se os bruxos não forem parados, vão continuar a trazer a morte, a infelicidade, a doença e a pobreza à comunidade.

Afirma-se erradamente que esta escalada de violência não se deve a crenças em magia negra mas sim à inveja económica, nascida de um boom de exploração mineira que ampliou a divisão económica do país e colocou os ricos mais distantes dos pobres. Uma inveja por quem está bem na vida. Muitos dos que são acusados de bruxos na Papua, acumulam cargos nos governos locais com a exploração mineira e têm um elevado estatuto social. Ora alcançaram cargos de poder através do provento da exploração mineira, ora, por terem cargos de poder, chegaram aos lucros da exploração mineira.

Os nossos bruxos, usam símbolos como compassos, aventais e pirâmides com olhos. São, entre outros, Directores Executivos (CEO), Directores Financeiros (CFO) e saltam magicamente entre Conselhos de administração de empresas e altas posições no Estado com uma escandalosa volatilidade e leviandade. Ao menos na Papua alguém tenta fazer alguma coisa com este bruxedo.

sexta-feira, dezembro 13, 2013

Hung'Em Games - Parlamento

Se eu ganhar €100,000,000,00 vem o Estado e fica-me com €20,000,000.00 para se auto-alimentar. Pois bem, eu pegaria noutros 20 milhões e criava uma milícia armada de actuais desempregados com um único propósito: cercar a Assembleia da República. Também pensei em crianças soldado, mas quero ser visto mais como um salvador da Pátria, não tanto como mais um tirano.

Todas saídas seriam prontamente vedadas e pedidos de ajuda impossibilitados. Uma vez entrincheirados no hemiciclo, todos os deputados ficariam automaticamente inscritos num magnífico jogo de sobrevivência. Dos 230 deputados (julgo eu, não me dei ao trabalho de ir confirmar esta ideia), apenas podia sair de lá um vivo se o conseguisse fazer pelo próprio pé. Tudo o que lá se passasse era transmitido 24 horas por dia pelo canal Parlamento, com transmissão gratuita pela TDT. Para animar as audiência, criava um chat interactivo que recebia mensagens por SMS dos espectadores. Numa de recordar os bons tempos do IRC, também conhecido por muitos como mIRC.

Debaixo dos lugares dos deputados, que nem coletes salva vidas, estariam 50 armas dispostas aleatoriamente (com excepção da Ana Drago que teria algemada ao pulso uma marreta de 14 quilos). Engane-se quem julga que as armas trariam vantagem. Seriam armas que nem na Idade Média eram práticas ou eficazes mas, por imposição das regras, os seus detentores eram obrigados a usá-las. Por exemplo:
- Matracas com punhais ao invés madeira;
- Capacetes com chavelhos protuberante mas que dificultem a visão e pesem sete quilos;
- Cadeiras de madeira maciça cujas pernas são espadas;
- Adagas de dois gumes, sem cabo, que teriam que ser manobrada pelas pontas dos dedos no lombo da lâmina;
- Um malho em aço que, de cada vez que é usado, o seu utilizador leva uma descarga eléctrica que o deixa inanimado por um período a rondar o minuto;
- Pistola de carregar pela boca e sem culatra, obrigando quem dispara, a tapar a cara para não ficar cego com a explosão da pólvora. No entanto, não evitaria queimar com gravidade o dedo do gatilho;
- Soqueiras de vidro;
- Etc., a imaginação é o limite.

Capacete de quatro quilos com dificultador de visão activado.
Capacete de quatro quilos com dificultador de visão activado.
Para apimentar os jogos, cada deputado teria uma pulseira com leds que iam mudando de cor ao longo do dia. A cor definia a sua equipa. O interessante desta regra é fácil de alcançar. No mesmo instante que o Nuno Crato estava a abrir a boca ao murro ao Miguel Macedo, a pulseira mudava de cor e eram obrigados a colaborar. É fácil imaginar a cena:
- O Crato ao tentar levantar o Macedo, que agora é da sua equipa, leva com o malho de aço do Jerónimo de Sousa que o electrocuta e caem os três inanimados no chão.

No fim do dia, a equipa que tivesse mais pontos, tinha direito a uma ração de batatas e cebolas. Mesmo que um deputado tivesse estado um dia inteiro na equipa vencedora e, em cima do apito final, mudasse para uma das equipas derrotadas, não comia na mesma. É injusto à primeira vista mas mais não é que muitas medidas impostas à população, a serem concentradas na classe política.

Um tema facilmente extensível a mais, que nos faria sonhar com uma realidade quase utópica.

terça-feira, maio 21, 2013

Plano de Evacuação: da teoria à prática

Muitos planos de evacuação são sugeridos e impostos, poucas oportunidades existem de os evocar, em situação alguma são cumpridos.

Parte I - Da Teoria


Divulgam-se os planos e são efectuados vários exercícios com a finalidade de treinar as pessoas. Marca-se dia e hora para a simulação, fazem-se soar as sirenes. Os delegados de segurança vestem coletes e metem capacetes com cerca de meia hora de antecedência para que o simulacro corra bem, aguardam pacientemente nas escadas do edifício o tocar do alarme de emergência para que a evacuação ocorra sem problemas e imprevistos.

Deixam-se terminar reuniões com gente que se julga importante e só depois se soam alarmes, atrasando toda a brincadeira. Faz-se o simulacro por piso, para não fomentar confusão nas escadas e outros acessos, todos ao mesmo tempo é gente a mais, gera pânico.

Seguem-se então as instruções dos referidos delegados. A massa humana dirige-se aos pontos de encontro através das saídas de emergência mais próximas. Os visitantes continuam acompanhados pelos visitados e tudo corre como esperado. As acções de cada um e o seu comportamento segue em total harmonia com a ISO qualquer coisa.

Outros são informados que não existe necessidade de evacuação total, que os visados serão formalmente instruídos pelas respectivas chefias. Se avivarmos que as ditas chefias são as primeiras a deixar de ser vistas (leia-se "as primeiras fugir para salvar o próprio coiro, qualquer que seja o custo"), então temos já baixas por antecipação.

Não toca o alarme numa das vezes, quando toca avisam que é teste. E se durante o teste há mesmo catástrofe? Tendo em conta que no teste há sempre falha de electricidade e não há gerador a diesel que funcione à primeira, fazendo o cheiro a plástico e metal curto-circuitado cheirar-se a quilómetros, não é difícil.

Todos respeitam um cardápio de normas ISO, mas todas estas ISO são feitas e doutrinadas por gente que nunca praticou nem presenciou uma evacuação séria. Nunca teve que sobreviver a uma qualquer catástrofe. Prova disto é estarem ainda vivos. Em qualquer calamidade eram mortalmente colhidos pelo fatífero pensamento burocrata e sentimento de preeminência intelectual que julgam deter.

Se há características que não definem as catástrofes são a sua consistência, estabilidade e previsibilidade.

Parte II - À Prática


Em caso de verdadeira emergência, com a Terra a tremer e pessoas a gritar em histeria, conseguia esta gente pintar mais depressa as calças de merda, do que vestir um colete sem nele ficar enrolado e nele se sufocar. Quem obrigou o adiar do simulacro pela dita reunião inadiável, achar-se-ia hierarquicamente superior e por certo exigiria tratamento distinto pela frente de chamas que consome o edifício. Por mim, podiam bem ser os primeiros a arder. Ao menos o fogo estava ocupado e não molestava outros.

Se não se pode usar o elevador, como é que se evacuam os aleijados? Jogam-nos pela janela? Ou são encaminhados na cadeira de rodas até junto das escadas “inspire fundo e pense em almofadas” e mal a criatura fechasse os olhos era baldada escadaria abaixo? Consulta-se um bruxo e consoante o seu parecer, as pessoas com deficiências de mobilidade são convidadas a não ir trabalhar nesse dia?

A realidade choca com a teoria. Tudo o que é bonito no conjunto e na imagem, falha no conteúdo a que se propõe. Além do mais está na genética humana, quando em situações de emergência e de elevação de adrenalina, disparar o instinto animal. No instinto animal há o sentido de sobrevivência que é erguido a valores que torna a pilhagem não só aceitável, como obrigatória. Não se pode esperar ordem e coordenação. Em caso de emergência, estamos mais com os pés no lado do tumulto do que na procissão.

Eu a ver-me numa situação de aperto, a primeira coisa que faria seria agarrar num objecto rombo ou pontiagudo. O importante é que seja uma boa e manobrável arma de defesa pessoal. Procuraria um bom agrafador ou o pé de uma cadeira, desde que fossem de metal.

Não se pode descobrir o que provocou a tragédia, pode ser sempre o começo de uma tragédia maior. Por isso é sempre recomendável preparar-nos para o pior cenário, para um mundo pós apocalíptico. Dito isto, não sugiro colher computadores portáteis pelo caminho. Para além de pesados, torna-se difícil o seu transporte em número. Apostar sim em telemóveis dos ditos smartphones. Com quatro ou cinco, para além de caberem todos nas algibeiras sem chatice e alarido, consegue-se um pé de meia para sustentar a nossa família por uns pares de meses. Levar dois portáteis para rua sem ninguém dar conta do espalhafato que é ter um volume rectiforme debaixo da barriga do casaco, é difícil. Muitas vezes com o pânico, continua o rato preso que nos denuncia arrastando-se pelo chão, chamando ainda mais à atenção. Que justificação dar?
A ideia que me fica destes simulacros é que estamos todos a sermos treinados para não sobreviventes.

sexta-feira, maio 03, 2013

Sushi - Um Desconchavo?

Há para aí uma tendência (ou trend, se utilizarmos o americanismo amaricado) para se gostar de sushi. Tendência que é acompanhada pela necessidade de exclusão social de quem não gosta de sushi numa de “faço aos outros o que fizeram a mim”.

Quando alguém não gosta de sushi é tão severamente criticado que acaba por gostar. Não que o paladar se adapte, mas porque as pessoas mentem com receio de mais represálias. Por isso mesmo é que quase toda a gente diz o mesmo “de início detestei, mas depois passei a adorar e é o meu prato favorito de sempre”. Se a Natureza nos mete a não gostar de algo, é porque o faz para representar o perigo de intoxicação. Se é amargoso, pode ter veneno, se é ácido pode estar verde, se está avinagrado, pode estar azedo. São defesas nossas que de tantas encrencas nos têm salvo. Ou seja, não compreendo o que leva as pessoas a insistir comer uma coisa que sabe mal na esperança que venha a saber bem. Quando tinha dois anos, experimentei areia da praia e não gostei. Nunca mais voltei a provar, um ensaio foi suficiente para não voltar a repetir. Se morrerem todas envenenadas pelo sushi, chama-se a isso selecção natural.

Não gosto de sushi. Posso ir mais longe, o sushi não presta. Reconheço que aquilo tem todo o aspecto para ser bom, só que depois não sabe a bom. Ou eu tinha as expectativas demasiado elevadas sobre o termo "sushi é muita bom" e sofri de reflexo condicionado invertido, ou aquilo é uma fraude mas toda a gente tem medo de passar por “fora de moda”(um tipo de o rei vai nu) ou ser apelidado de pobre. Nós pobres passámos muito tempo a comer coisas cruas, não queremos voltar lá. Não querer comer coisas cruas é considerado pindérico e de pobre por contraste com os ricos extravagantes das orgias romanas (um dos sinais da decadência de uma sociedade).

Em caso de obrigatoriedade de se comer sushi, num qualquer evento social com gente dentro (ou in, se, mais uma vez, utilizarmos o americanismo), o segredo para comer aquilo é fazê-lo de boca aberta com a língua recolhida ao pé do badalo para não lhe tomar o gosto.

O sushi está muito ligado ao mundo da moda, porque também ele é um prato da moda. No mundo da moda é prática corrente e socialmente aceite a Bulimia nervosa. Daí não custar nada comer “muito sushi” se depois se vomita tudo. Agora para pessoas de alimento como eu, trabalha muito o estômago.

Se fosse preciso comer este sushi todo para ver o resto, pronto, seria diferente. Havia uma motivação e um objectivo.
Uma vez levaram-me a um sushi dos ditos finos. Não fui ingrato. Agradeci, aceitei e tentei comer. Diz-se, aproveitando a frase do Fernando Pessoa a propósito de um outro produto, que primeiro estranha-se, depois entranha-se. Por isso mesmo repeti duas vezes para ver se a coisa se entranhava. À boleia foi também a vontade de não querer dar nas vistas por a experiência estar a ser menos saborosa do que era suposto. Só depois é que me lembrei que os finos não só não repetem, como deixam restos no prato. Por isso é que gostam de sushi.... por deixarem tudo no prato.

Já fui a outro e gostei porque tudo o que escolhi foi à chapa para fazer... Assim é que é falar!

terça-feira, abril 16, 2013

Bullying Parental

Há dias lembrei-me de um evento ocorrido estava eu no 7º ano. O gordo “fazia” anos e, em mais uma tentativa de fazer amigos e de ser, pelo menos, residualmente popular, convidou os colegas da turma. Finalmente era o centro das atenções, seria aceite e admirado por ser quem é, esperançava ele.

Com tanta gente num evento organizado para culto da sua pessoa, criou-se uma malha de realimentação positiva de nervoseira e histerismo, tão característica em festas com alminhas cuja puberdade ainda é coisa que está a ameaçar aparecer. Quando se é o aniversariante, a amplificação desta malha é gigantesca. Todos falavam a gritar enquanto tinham a boca cheia de porcarias, porcarias estas que eram dispersadas aos grumos em cada gargalhada que era solta sem qualquer constrangimento. Com os parabéns acabados de contar, algo cedo porque havia pais que já lá estavam para ir buscar as criaturas, algo de extraordinário se passou.

No meio da orgia de comida e algazarra, o pai do gordo, também ele visivelmente alterado com a agitação provocada pelo calor do momento, viu como única purga e resolução possível, dar sem qualquer aviso prévio, um estalo audaz e sonoro no próprio filho:

“Cala-te pah! Estou farto de t’ouvir!”

Silêncio total. À frente dos colegas da escola, todos reunidos à volta da mesa, observaram o gordo que tanto se habituaram a gozar, a ser humilhado pelo próprio pai. Fatias de bolo por cortar, gente por servir e o gordo com um sorriso estúpido a tentar ver por entre as lágrimas que lhe enevoavam os olhos sem cair.

No referencial do gordo, o mundo parou. Teve tempo de olhar na direcção de todos, tentando aguentar a expressão do iludido artista cujo espectáculo estava condenado desde a venda do primeiro bilhete. Um espectáculo em que só ele acreditava. Seria precisa a força de mil homens feitos para aguentar aquelas lágrimas. Assim que a primeira caísse. estava carimbado o passaporte para a catástrofe que tanto tentava evitar.

Que berreiro infernal saíram daquelas goelas enquanto todos os amigos se riam dele e o pai ia para o quarto irritado com a situação em que o filho o metera. Nem dos convidados foi autorizado a despedir-se, tal era a quantidade de ranho e baba que saía daquela cara avermelhada do choro e do estalo.

Qualquer percentagem de confiança e auto-estima que o gordo pudesse vir a acumular ao longo da sua vida, foi irreversivel e definitivamente boicotada.

segunda-feira, março 11, 2013

Largari ille Monstrum


No local onde geralmente sou obrigado a passar 8 horas por dia, mais qualquer coisa para cobrir esse conceito abstracto e sem definição axiomática que é “ fazer a extra mile”, tenho por hábito ir ao cubículo dos deficientes existente na casa de banho.

Se há coisa que me irrita, entre muitas outras, é estar em espaços acanhados. Essa irritação sobe de escalão quando me encontro desprotegido e vulnerável a “largar uma reguada”. Assim, ao ir à casa de banho dos deficientes, não só tenho espaço suficiente para esticar os braços acumulando, quando necessário, energias cósmicas para fazer força, como também posso repousar os cotovelos nuns agradáveis e bem pensados apoios laterais para braços. Toda a casa de banho devia ter uma maravilha do design de interiores de casa de banho como esta. Deve ter sido desenhado em Itália que eles costumam ter boas ideias aliadas ao requinte do bom gosto.

Há tempos, com os gritos de desespero de alguém no exterior deste cubículo a pedir sofregamente para eu sair que não conseguia usar as outras sanitas como música de fundo, inspirou-me a seguinte preocupação:

- Poderá este meu conforto num momento tão delicado, fazer de mim um monstro?

O trono do raciocínio
Apesar dos ininterrupto lamentos, não consegui abstrair-me da minha linha de raciocínio: Só existe um cubículo para deficientes por casa de banho. Ir à casa de banho deve dar-lhes tanto trabalho que só cá vêm (isto de dizer “cá” e não “lá”, não é de todo inocente) quando já não dá para aguentar mais. O equilíbrio entre “tenho vontade” e “ainda não justifica o trabalho de lá ir” tem uma calibração diferente que varia do deficiente para o dito normal. Quando cá chegam, geralmente estão no limiar do “não aguento mais” e não é um simples baixar as calças e largar lenha que os alivia. Há toda uma rotina apinhada de critical chains. Também não dá tempo para esperar, nem procurar um outro cubículo desocupado. Pode dar-se a catástrofe.

Concluí que eu é que estou bem e que nada é culpa minha. Quem está mal é o outro que joga à confiança com o facto de ser o único gajo sem pernas no piso inteiro. Só pensa nele e é egoísta. Nem o “ai que me borro todo!” tantas vezes repetido, me demove deste pensamento.

quinta-feira, janeiro 24, 2013

A Professora da Primária

A minha professora da primária veio do tempo da outra senhora. Havia bastante respeito pela professora Jacinta. Respeito esse que se intrometia com facilidade no pavor pelo castigo.


Não se podia ir à latrina, era sempre desculpa dos cachopos para não estarem na aula. Ir aos lavabos era uma versão mais grave de algo mau, que era ir ao recreio. Não só porque era durante o tempo da sagrada aula, como podiam ir tocar nas partes e isso é pecado, mesmo quando é para ir aliviar necessidades fisiológicas. Por este mesmo motivo, ocorreram vários acidentes. O Ricardo insistiu repetidamente e com algum nervosismo (e em cada repetição, ele insistia nervosamente) que queria ir à casa de banho Recebeu sem aviso um belo estalo de pouca velocidade mas de elevado momento, que lhe deixou a cara a palpitar entre o frio ártico e o calor vulcânico por estar a ser chato "vais depois no intervalo e se continuas nesse cismar, nem ao recreio vais". A consequência, o dito e conhecido "fazer nas calças", era sempre um mal menor que o eventual castigo.


Antes do intervalo, a sala começou a cheirar a café borrado com restos de sopa de couve lombarda e adubo industrial. O Ricardinho estava muito calado e com uma poça de mijo denunciadora à volta. Descobriu-se, como se não fosse evidente o suficiente, que se tinha cagado todo e voltou a acolher na cara um maduro banano por "então e não sabias pedir para ir à casinha de banho para ir fazer cócó seu porco?".

Humilhação total! Estar todo borrado, a chorar com soluços e ainda levar um estaladão no focinho. No fim, ainda ter que aguentar sentado em cima de um pastel frio como a angústia de ter toda a turma a olhar para ele.


Lembro-me também do dia da árvore, o qual nos trazia medo de um acesso de disciplina incontrolável por parte da Sr.ª professora Jacina. Afinal, tratava-se de um dia diferente dos outros. Plantar árvores no dia da árvore onde se promove a união com a Natureza e a harmonia entre os humanos, alimentava também um monstro personificado pelo castigo por fazermos algo que desconhecíamos que era errado.

Depois de plantada a nossa árvore, uma alegria quase divina apoderou-se de todos nós. Apenas a conseguimos exprimir correndo com uma felicidade capaz de acalorar o coração mais indiferente. Corremos com o mesmo cansaço que um inválido aquando sobre ele se manifesta um milagre que lhe recupera todas as suas faculdades motoras: nenhum. Que bonito, estávamos a ajudar a Humanidade. Chegado ao destino, a porta da sala, esperámos que esta fosse aberta. Qual não é o nosso espanto quando fomos obrigados a ficar à porta da sala, enquanto os outros continuavam no recreio, com direito a um saco da Junta de Freguesia da Ameixoeira com um rico farnel lá dentro: Capri-Sonne, pão de leite misto e caramelos de fruta Circo. Estávamos a ser excluídos sem sabermos o motivo.

Foi o primeiro exemplo claro na minha vida, de como se propaga uma onda. De início, estávamos todos encostados à parede, numa situação estacionária portanto. Todos com aquela euforia nervosa de quem se encontra na incerteza do que lá vinha a seguir, mas o que era, não era bom. Não era bom mas era inevitável. Após a aplicação do devido punitivo ao primeiro da fila, a emissão de um impulso, era óbvio o que vinha lá. O primeiro berrava de dor, o segundo chorava por simpatia ao primeiro. O terceiro estava só apreensivo mas, por osmose, já sentia a mão a arder. Do quarto para frente, ainda dava para rir e aumentava o riso, quanto mais afastados dos primeiros se estava.  A onda propagava-se.
Três reguadas estavam sempre garantidas. Caso alguém se fizesse de forte e tentasse não chorar, libertando apenas um "ai!" irreprimível, então a carga aumentava em número e intensidade. Acabam todos a chorar, velocidade de fase vs velocidade de grupo, só precisam de mais ou menos incentivo.


Os “outros”, que nos viam como os outros, da turma assistiam sentados e sorridentes, com um gozo, altivez e deleite estampados na cara, por terem sido "bonitos", bem comportados e estarem do lado da Sr.ª professora. A satisfação ao verem o nosso merecido castigo, era evidente. O regime protege e favorece quem pactua com ele e promove o inbreeding. Fantástico, começa-se de tenra idade a moldar cabeças.
Aos “outros”, espero que estejam a ter uma vida miserável, sem perspectivas de alegrias futuras ou ambições (sejam elas grandes ou pequenas). Isto para haver justiça contra a injustiça.


Houve também um concurso de guitarras no espaço da cantina. Mas só pude ir ver porque a Sr.ª professora não deixava participar, a turma dela só tinha meninos disciplinados à antiga, ou um bonito conjunto de potenciais imbecis. Estar a tocar “A Minha Casinha” dos Xutos & Pontapés em guitarra de ar, é uma descida na montanha russa que nos leva à heroína. Apesar da participação em massa da população cigana da escola no concerto, ganhou uma miudinha da primeira classe. Tocava que nem o Pete Townshend das guitarras de ar. Levámos um mês com medo do recreio e dos ciganos que nele andavam em patrulhas a fazer cobrar ao caroulo o concurso perdido.


A quantidade de porrada de régua de madeira que levávamos na mão era também proporcional à pobreza e à profissão dos pais. Igualdade de oportunidades o tanas. A partir do dia em que se soube qual a (profissão) do meu pai, passei de um extremo ao outro da escala. As notas novas, também se afastavam em espelho das antigas. Passei a ser convocado para fazer de juiz com a nobre de missão resolver conflitos no recreio. Obviamente que já dessa idade a lei estava para os ciganos, como a água está para o azeite, um não se entranha no outro.

Lembro-me também do meu amigo Daniel. Bom rapaz mas propenso à estupidez em igual quantidade. Olhou para a janela em busca de fuga para a aborrecida aula. Viu a Lua quase cheia, visível a olho nu em plena luz do dia e gritou: 

"Aííí vejam todos! Um planeta!" - e todos correram, movidos pelo fascínio de tão misterioso astro que se deixava avistar. Todos menos os “outros”.


"A Lua não é porque a Lua só aparece à noite!" -  disse o Carlitos, que além de muito rápido na corrida, era também muito inteligente, até andava com dois relógios, um digital para ver as horas e um analógico para ver quanto tempo faltava para as horas certas. Todos concordaram imediatamente com a pertinência e assertividade da observação.


Esse nosso espírito cientifico e gosto pelo desconhecido e pela sua descoberta, foi rapidamente interrompido por uma camada homogénea de reguadas em cada uma das mãos. Por vezes ainda comparo esta relação da professora Jacinta com os seus alunos, com a Inquisição e as grandes mentes que provaram a cicuta por terem sido contrárias aos escritos bíblicos.

quarta-feira, agosto 01, 2012

Estrafolharæ Traho Salutis

Como diz o título, estrafolhar trás saúde. Assim se pensava até então. No entanto, ao ler a notícia que se segue, notei que o protagonista morreu da terapia,

Fonte - Correio da Manhã
Um relato impressionante que apenas julguei possível como argumento de filmes… mais em concreto filmes ditos amadores, vulgo pixotéricos.

Estrafolhar faz bem mas há que atentar à posologia prescrita pelas pessoas competentes, neste caso um médico ou farmacêutico. Há limites tabelados e que variam com a idade, peso, vícios, etc. Este é um nítido caso de auto dosagem grosseira que levou à overdose.

A única história que conheço destas, passou-se com o Sôur Chico. Tinha um restaurante “fino” na parte velha da Ameixoeira de nome Teia de Aranha. Era portanto uma pessoa de posses e muito cobiçado pelo sexo feminino. No topo dos seus 68 anos casou-se com uma miúda de 59. Com algumas cunhas na farmácia pelo meio, conseguia comprimidos azuis sem a chamada receita médica.
O coração falhou em pleno acto e há quem diga que teve uma das melhores partidas deste Mundo para o outro. No apogeu da cerimónia, aproveitou o último espasmo e com um gemido sôfrego e rouco, abriu as portas do Céu.

Ninguém chorou a morte deste homem, apenas sorriam em jeito de homenagem, temperada a inveja e cobiça, quanto à forma como morreu.

quinta-feira, dezembro 15, 2011

Um Acontecimento Singular no Universo

Embora me tenha forçado sempre ao contrário, ainda não consigo acreditar no acto de reencarnar (forma preferível a reincarnar). Porquê? Porque me sujeito eu a esta angústia permanente tão facilmente solucionável com o simples acto de acreditar?

Simples, porque todos os que falam em vidas passadas, foram invariavelmente Júlio César, Napoleão Bonaparte, Marquês de Pombal ou o General Tito (salvo a excepção de um antigo colega da faculdade que sempre afirmou ter sido a Mata Hari).

Nunca ninguém se chegou à frente e afirmou categoricamente:
"Eu fui um limpa traseiros na corte del Rei D. João II, Dinastia de Avis, durante o seu segundo reinado."

Nem isso, nem engraxador na Rua Augusta, calceteiro na Rua do Ouro ou carteirista no eléctrico que sobe à Graça. Digo que sobe e não o contrário (desce à Graça) porque quando sobe, é que o eléctrico vai à pinha de turistas com carteira recheada e com reformados incautos. Em sentido descendente o eléctrico transporta apenas carteiristas como simples passageiros que voltam à base para granjear mais turistas fresquinhos. Os turistas apenas fazem o percurso ascendente, dado que uma vez que cheguem ao destino, dão pela falta da carteira e, sem dinheiro para o bilhete de regresso, são forçados a vir a pé.

Ora se considerarmos a improbabilidade da reencarnação, temos também que considerar a improbabilidade de eu voltar ao Mundo Terreno como português nos dias de hoje (isto tendo como certo que tal poder de decisão está do meu lado). Se a isso incluirmos a probabilidade combinada da minha alma se voltar a condenar com uma inscrição no Instituto Superior Técnico e se ainda adicionarmos eu terminar essa tão hercúlea tarefa, estaremos perante a probabilidade mais residual de todo o Universo. Tão improvável que poderá ocorrer apenas uma vez em toda a extensão temporal e confins remotos da História completa do Universo.


Essa singularidade tão excêntrica do Universo, ocorreu no dia 15 de Dezembro de 2011, segundo o calendário gregoriano. A repetir-se, só num daqueles pontos do Universo que, mesmo não se tendo contactado entre eles dada a grande distância que os separa, apresentam mesmo assim, propriedades físicas iguais. Porque aí, dado que a velocidade da informação está limitada à velocidade da luz e a sua troca (de informação) não é possível, não está ao meu alcance avisar o outro eu, para não voltar a cair na esparrela.

quarta-feira, outubro 26, 2011

Ode aos Bufarinheiros


Se, como vem escrito na literatura da especialidade, o tamanho da pila é proporcional ao tamanho dos sapatos, tal facto só faz aumentar o meu medo de ser violado por palhaços. Dado que na política só existem palhaços... Acho que dá para ver onde quero chegar com esta minha fobia profunda (literalmente).

Os políticos deviam ser mais directos e honestos uns com os outros. Seria um começo menos mau para serem honestos para com o restante povo. Se há coisa de que a Assembleia está à pinha, são políticos falsamente indignados uns com os outros, terminam a sessão e vão todos para os copos e enfardar leitão. É tudo uma encenação, no fim do dia comem todos do mesmo tacho e não deixam nada a mais ninguém. Que tamanha falta de honradez e insigne lacuna de deveres morais e de justiça. É um feudo sem honraria que se alimenta com o que é dos outros.

Para contrariar isto, proponho mais seriedade e intervenção na Assembleia. Uma intervenção directa e com acção, evitando assim a passividade das palavras que nunca nos levaram a bom porto. É tempo de mudança.

Para começar, abolia-se a burocracia e mordomias da linguagem política. Eram necessárias frases mais directas e objectiva. Por exemplo, um deputado sério da oposição, ao dirigir-se a um membro do governo, poderia fazê-lo da seguinte forma,
"Se tivesses cornos, nem as estas portas do hemiciclo eram suficientemente altas para conseguires passar".
Ou, mesmo,
"Estás aqui todo contente, mas a tua mulher anda por aí a servir-se com os marialvas e a levar em tudo o que é buraco".

Isto sim era política! Tínhamos a certeza que andavam a lutar pelo país e não esta coisa de fingirem estarem uns contra os outros e depois andam todos aos beijinhos e às pancadinhas nas costas uns dos outros. O povo teria confiança nesta gente.
Infelizmente, ao ver esta cambada de mansos que a única coisa que fazem é fingir que se defendem uns dos outros, sei logo que só o fazem para se safarem a eles e uns aos outros. De outra forma não se explica haver tanto quadrúpede sentado na assembleia parado a olhar para o boneco. Fazer até faz... Faz tempo para chegar a sua vez ou, quanto muito, que chegue a reforma como deputado, o que, a seu entender, já não é nada mau, nunca foi ambicioso.

Quando algum começasse a julgar-se importante e acima do povo, como o que acontece com todos os que lá estão neste momento, era justo ouvirem dos populares:
"Nasceste lá nas berças atrás de uma pedra, chegas aqui ainda a cheirar a esterco de porco e tens a mania que és gente. Sê humilde, seu merdas... "
O mesmo que ouvia estas palavras, levava também um valente banano no meio do focinho e caía feito caule no chão.

"Ai passaste pelo governo e agora estás na direcção de uma empresa pública? E ainda recebes reforma pelos 4 anos que andaste a mamar à conta dos outros? Então toma lá!" e era-lhe aplicada uma valente cabeçada nos dentes para o fazer cuspir um incisivo e meio.

O mesmo com as deputadas e mulheres autarcas. Era só uma começar a dizer estupidez ou ser apanhada em falta e vinha logo outra por trás para lhe dar um estalo tão grande que a mula ficava com um zumbido permanente num ouvido e nem tinha reacção para chorar, tal era o choque.

Por exemplo, fala-se muito das pensões vitalícias. Se houvesse uma política mais directa e honesta, alguém competente aparecia por detrás de um destes beneficiários do dinheiro dos contribuintes, puxava-lhe o ombro direito com a mão esquerda e com o punho direito empurrava-lhe um intenso murro nariz a dentro. Ouvia-se o estalar da cana do nariz a ecoar na Assembleia, o sangue espirrava pela camisa branca encomendada à medida e, enquanto o pensionista tentava equilibrar-se para não cair com as tonturas e estancava infrutuosamente a hemorragia que lhe escorre duma cara que ele teme já não ter no sítio, ouvia com rancôr palavras que lhe iam directamente à alma sem passar pelos ouvidos:
"Seu bandido... vai roubar a puta da tua mãe que te devia ter afogado num balde cheio de merda mal nasceste!"

Fosse esta a medida de coação a aplicar a todo o político/autarca que usa o estado para interesses que não o do próprio estado, e haveria uma grande falta de especialistas em rinoplastia tal era a sua demanda.

Político/autarca que se contradisse-se ou mentisse ao povo, era trazido ao Terreiro do Paço e levava com um barrote de madeira de 90 kg num ombro e um de 35 kg pelos cornos abaixo, depois ia a pé para casa com a omoplata fora do sítio e com os populares a darem-lhe pontapés no cu, qual BMW série 7, Audi A8 ou Mercedes 500.

Chamem-me bárbaro se quiserem, mas selvagens são os que lá estão, para nosso prejuízo. Estamos todos a pagar em exagero pelos seus chauvinismos.

Se fazer política fosse como sugeri que fosse, era uma questão de tempo até todos os problemas do país estarem resolvidos e vivermos todos em harmonia e prosperidade. Afinal de contas quem é que aguenta estar sempre a enfardar no focinho? Pelos vistos, só nós.

quinta-feira, abril 07, 2011

津波 垂直 - Tsunami Vertical

Dado que a minha vida é uma monótona pasmaceira, grande parte da acção e aventura, passa-se nos meus sonhos. Hoje, mais uma vez, não foi excepção.

Como os terramotos seguidos de tsunamis andam na moda, o meu subconsciente achou por bem que Portugal devia ter um, para não andar sempre na cauda do Mundo. Indonésia, Tailândia e Sri Lanka em 2004, Haiti em 2010 e o Japão em 2011. Cada vez o intervalo entre sismos é mais pequeno e é a vez de Portugal. Não merece a pena estar com burocracias que nos metem sempre nos últimos lugares como é costume. É meter já as mãos à obra sem mais delongas. Não conseguimos o pódio é certo, mas, dada a chamada "crise global", um quarto lugar já não é mau de todo. Aliás, até arrisco a dizer que os países exigem terramotos para poderem evoluir rapidamente. Ainda hoje o Japão teve outro de magnitude considerável. Sendo dos países mais abalados, não espanta que sejam também dos mais evoluídos e com melhor economia. Até faz sentido, quando as coisas não são agitadas, estagnam e quando estagnam apodrecem. Daí o estado do Estado Português. Parado estes anos todos, apodreceu. Vir o FMI ou o que seja, é como está a meter remédios em água estragada. Parece água boa mas continua estragada. Só lá vai com água nova e que esteja em constante movimento para preservar a sua qualidade.


Sonhei portanto que se tinha dado um grande terramoto e que estava tudo a preparar-se e à espera do tsunami. Cada um preparava-se como sabia e, como ninguém sabia como se preparar, fizeram o que sabiam fazer melhor. O que assisti, embora em sonhos, dava uma curiosa reportagem.

Das pessoas que me lembro que compareceram no sonho, sem dúvida a mais desenvolta foi a colega Priyá. Sentada no meio da estrada, desenhou uma circunferência a giz à sua volta e ficou ali impávida a beber um  Capri-Sonne enquanto aguardava a chegada do tsunami.
"Oi? Não fazes nada? Estás só à espera que o tsunami chegue e te leve?", perguntei eu preocupado com a continuação da sua existência.
"Não vês que isto não é um giz normal pah? É um giz com um meio quiral...! Tem permitividade e permeabilidade menores que zero (ε<0 e µ<0), são meios duplamente negativos! A onda chega aqui e, ao incidir no meio, deflecte para fora e passa-me à volta... devias saber estas coisas." disse ela rindo-se na minha cara... E sabia, se ao invés de estar a escrever isto, estivesse eu a escrever a dissertação. Agora também já não merecia a pena... o tsunami vinha lá de qualquer das formas. Deixei-a lá esperando que as suas relações constitutivas estivessem correctas e que toda a sua despreocupação com o maremoto não tenha sido em vão.

Fui para casa para tentar salvar os meus pertences e avistei o meu amigo Uel Mig (do americano Mig, Uel) desesperado por boleia para ir para a Costa da Caparica:
"Olha o Miguel... o que fazes aqui?", perguntei intrigado.
"Estou a ver se arranjo quem me leve à casa da Costa. Tenho lá o fato de bodyboard e a prancha."
"Mas para que queres tu isso agora?"
"É a onda da minha vida... tenho que a apanhar! Ou é agora ou não é nunca..."
Com este argumento peguei no Lancia e metemos-nos à estrada. Mesmo sem seguro no carro e a circular a um ritmo desoprimido, os males que daí adviessem, não teriam impacto... afinal vinha lá algo perto do fim do mundo. Até as brigadas de trânsito devem estar a laborar coisas mais interessantes que procurar multas.


Na viagem de regresso deparei-me com a minha colega de natação. De braços cruzados, perna direita em avanço de fase face à esquerda e a fitar o horizonte como quem espera impacientemente por algo, estava ela toda equipada como se de uma aula de natação se tratasse.
"Então menina Marta? Estás aqui...?"
"Então o quê? Estou à espera do tsunami."
"E não te preparas para o tsunami?"
"Eu preparar-me? Olha que lata... O tsunami é que se tem que preparar para mim, eu vou a costas! Mas já disse ao Paulo que a seguir não faço 2x200 estilos."
Ainda aguardei um bocado julgando que me aguentava se a acompanhasse a bruços mas depois ocorreu-me que quando a Marta nada costas, é tanto inalcançável como incansável. Se ela ia a costas por certo era para nadar durante muito tempo e em velocidade. Não podia esperar por ninguém pois isso implicaria boicotar a sua própria salvação. Achei por bem não interferir com a sua determinação, ao menos salvava-se ela.

Segui caminho, para tentar chegar a casa ainda a tempo de abrigar qualquer coisa. À porta do prédio, encontrei o meu avô João. O meu avô João, visita habitual nos meus sonhos, foi sem dúvida o mais sensato. Apareceu de fato e gravata e atalhou logo conversa sem que eu conseguisse sequer cumprimentá-lo:
"Se é para receber o tsunami, então é melhor comer como deve de ser. Não é de estômago vazio e em fraqueza que a gente se mete numa coisa destas... sabemos lá nós, quando teremos oportunidade de comer bem outra vez?"
Nem questionei a veracidade das afirmações do meu avô. Se ele o disse é porque é verdade. Voltei para o Lancia, desta vez acompanhado pelo meu avô, e fomos a um restaurante perto dos Inválidos do Comércio. O dono encaminhou-nos para uma mesa com vista para o mar no primeiro andar. Escolhemos os dois Bacalhau à Brás e já trazia a empregada as travessas, o companheiro da mesa ao lado pediu uma maçã assada com ovo a cavalo. Embora o tenha feito para se meter com a rapariga, não deixou de ter piada.


De volta a casa, dado que não tinha tempo de salvar mais nada, meti na mochila o que eu achava razoável para receber este tão nobre evento: GPS, PMR, máquina fotográfica, bolachas e sandes. É então que entra a minha mãe toda lançada quarto a dentro:
"Não há cá tsunami nenhum para ninguém enquanto este quarto não estiver arrumado!"

Formidável! Tanto esforço, preparação e tempo perdido para ficar tudo boicotado só porque eu tenho folhas desalinhadas em cima da secretária. Nem sei o que é pior: se o facto de toda a gente ter tido trabalho e preocupação para receber um tsunami e agora ficar tudo em águas de bacalhau, se nem um tsunami consegue contrariar a vontade apocalíptica da minha mãe. Tantos estudos para prevenir tsunamis e para estes terem pouco impacto nas povoações e afinal bastava perguntar à minha mãe se ela fazia o obséquio de impedir a catástrofe.

O tsunami até pode vir lá de mangas arregaçadas, mas se a minha mãe não quiser que ele aconteça, nada feito.

sexta-feira, abril 01, 2011

Não Matem os Sonhos (Somniums Matatum Est)

Esta semana tive um dos sonhos mais bonitos com que alguma vez sonhei em toda a minha vida.

Quando comecei a sonhar, ou pelo menos o que recordo como o início do sonho, encontrava-me à procura de algo leve para comer. Como sempre o faço pois só como coisas leves. Vagueava numa superfície comercial perto do Estádio da Luz sem destino aparente. Indeciso e sem ideias para escolher como minha opção, por ver os mesmos estabelecimentos de sempre. Quando a meus olhos, chega uma das mais belas visões de esperança e salvação. Sonhei que vislumbrei no horizonte (curto porque o Colombo não é assim tão grande) um restaurante "Coma todos os bitoques que conseguir e pague apenas 2.99€".

A solução de todos os problemas da Humanidade finalmente encontrada. Fome, guerra e a doença todas extintas com um só acontecimento. A Humanidade encontrou o caminho para um futuro magnífico e este caminho não tem trevas pelo caminho (dada a sensibilidade do assunto, achei por bem repetir a palavra "caminho" para que a mensagem não fosse mal interpretada pelo caminho). Todos os prémios Nobel entregues de uma só vez e a uma só entidade.

Apressei-me para a caixa e fui logo atendido por uma brasileira. Classe de funcionários habitual em todo o restaurante que não seja tasca ou absurdamente caro. Brasileira essa que, pela distância atlântica que separa duas línguas/dialectos tão semelhantes, teimou logo, e sem eu lhe ter feito mal algum, em não perceber o meu pedido. Mas que havia a enganar? Estava ali para comer bitoques até não ter mais acção muscular para continuar a ingerir. Se quisesse comer só salada ia a um arraial gay ou a casa dessa gente que agora tem a mania que é saudável mas que não tem problemas em estar 4 horas a apanhar sol, beber álcool até cair para o lado ou fumar 2 maços de tabaco por dia (não que conheça quem seja assim, é um mero aviso para ficarem já a saber que não os quero conhecer, por isso crio logo aqui antipatia e desprazer por eles).

A custo, lá me fiz explicar e esclarecer...

Batatinhas fritas caseiras e arroz do bom, iguarias que faziam parte do menu pedido mas que tive que recusar. Limitei-me a pedir abacaxi para "cortar" e assim conseguir enfardar mais carne. Uma técnica que tem dado resultados positivos em todos os "comida à descrição" onde já fui treinar. Para primeira ronda pedi logo um bitoque à Eusébio com hattrick, que é como quem diz, 3 bifes (3 bifes = 1 bife à Eusébio) com 3 ovos estrelados a cavalo (hattrick). Fi-lo não por gula, que até sou equilibrado e ponderado a comer, mas por receio que quando voltasse para repetir, não houvesse comida disponível e eu tivesse que esperar que a fizessem. Não consigo comer muito mais se tiver que parar a meio.

O facto de em certa altura a carne ter sido teimosa em se deixar morder, é algo totalmente incorrelacionável com o eu ter acordado a rominar a meia fronha de almofada que tinha dentro da boca. Almofada que já contava com um avançado estado de "babado".

Ainda consegui incorporar o som do despertador no sonho e apareceu como o som da caixa registadora. Até fazia sentido a caixa registadora não se calar, com uma casa deste gabarito, pareceu-me bastante óbvio aquela porra não se calar. Os pedidos deviam ser mais que muitos e a facturação não tinha descanso. Infelizmente sucumbi ao ataque blitzkrieg da minha mãe que irrompeu impetuosamente pelo meu quarto a dentro, como se a polícia estivesse a bater à porta de casa à minha procura por tráfico de droga ou homicídio de uma figura pública, gritando um indignado:


- Tu sabes que horas são?


O que eu sabia é que ainda há segundos estava a comer descansado, sem chatear ninguém, e naquele instante, para além de sentir um vazio no estômago, estavam para ali a gritar comigo. A alegria extrema do sonho foi substituída pela desilusão e revolta. Era bom demais para ser verdade, é certo, mas ao menos podiam deixar-me viver o sonho e sentir o momento até ao fim uma única vez.

Das poucas coisas que me metem fora de mim são precisamente acordarem-me bruscamente ou interromperem-me uma refeição. Se porventura existe uma altura em que é sensato e correcto um filho sovar a própria mãe, não deve andar muito longe disto.  Sou filho único e senti logo ali, que não sou o filho favorito da minha mãe.

quarta-feira, julho 14, 2010

Corre Carlitos, Corre!

Neste pequeno texto, e numa clara demonstração que não vivo preso a memórias do passado, vou escrever sobre um amigo.

O meu amigo Carlitos.

Eramos muito amigos na escola primária. Gostávamos muito de correr. O Carlitos corria mais que eu. O Carlitos era muito rápido. Era o mais rápido em corrida lá da escola. Era o mais rápido da escola. Ninguém corria mais rápido que o Carlitos. Dizia-se que era tão ou mais rápido que um carro. Ele próprio também se dizia mais rápido que um carro. Ele tinha a certeza que era mais rápido que o mais veloz dos carros. Era tão rápido que nem precisava de atravessar na passadeira. Tão rápido que nem esperava que os carros lhe permitissem a passagem. Tão rápido que a estrada era meramente um ponto de passagem. O Carlitos aparecia de nenhures a correr e atravessava a rua. Atravessava e pronto.

Os carros por mais perto e mais rápido que andassem nunca apanhavam o Carlitos. O Carlitos apenas tinha que correr. Correr como só ele sabia. Correr era o que o movia e o que o movia era correr.

O Carlitos corria muito bem. Mas só correr não lhe chegava. Já havia muitos com boa corrida. Boa corrida mas não o suficiente para apanhar o Carlitos. Lembremos que o Carlitos era o mais rápido. Voar era o seu novo desejo. Voar mais e melhor os outros. Voar saltando mais alto e maiores distâncias que todos. 

Mas era a voar que ainda estava a dar as primeiras pegadas.

Foi a voar que o Carlitos deu de caras com a tragédia. Corria mais depressa que os carros mas ainda não voava suficientemente alto para lhes passar por cima.

Numa rua de dois sentidos passou em corrida o primeiro carro. Sem dificuldades como era de esperar. Afinal a correr não havia carro que conseguisse bater o Carlitos. O problema foi querer voar por cima do carro do sentido oposto. A correr nada lhe batia. A voar bateu e não foi pouco. Ao saltar para iniciar o voo abrandou a sua preciosa velocidade. Velocidade que o distinguia de todos os outros. Comprometeu o seu precioso momento espaço/tempo. O tempo dilatou mas a distância era a mesma. Distância que o Carlitos sempre correu num tempo quase imedível. A alteração abrandativa foi suficiente para recordar toda a sua ainda curta infância.

Retardou o suficiente para que o primeiro carro lhe desse uma trancada. Foi uma traulitada de vingança. Uma bordoada ressabiada. Nesse dia que o Carlitos voou mais alto que todos os amigos. Era o novo campeão.

Atravessou-se no meio da estrada e nem meia estrada tinha atravessado.
Pálido, tremia e gemia.

Para além de ser o mais rápido de todo o bairro, era também o que voava mais alto. Tinha o sonho realizado. O feito foi tão grande que demorou quase um mês para recuperar. Só depois saiu do hospital. Em casa os colegas da escola receberam-no como um herói.

Desengane-se quem pensa que os seus feitos ficaram por aqui. Não! O Carlitos era também quem tinha o registo do grito mais alto de todo o bairro. E não foi só o ar a sair dos pulmões com a violência da pancada. Foi um guincho solto com muita força e querer.

Todas as ambições do Carlitos se findaram nesse dia. Tinha tantos pontos quantos a área de superfície da sua cabeça lhe permitia ter. O prodigioso número de pontos na cabeça e um crânio agora oblíquo aprisionaram-lhe os sonhos mas não a esperança. 

O Carlitos é um bom rapaz.

terça-feira, maio 04, 2010

Sumol e o Seu Meio Irmão

Todo o bom chefe de mesa ou empregado de balcão sabe que pedir Sumol é para trazer logo um Sumol de laranja, nem sabe da existência de outro. Não sei bem o que é um "chefe de mesa", usei a expressão para não repetir a palavra "empregado". Podia ter começado de outra maneira, por exemplo "Todo o empregado de mesa ou de balcão (...)" mas depois a palavra balcão ficava meio sozinha e nenhum balcão sozinho é digno de confiança da clientela. Continuando...

Qualquer pessoa nascida no início da década de 80 ou anteriores, sabe que só existe um único Sumol. O Sumol original. Tirando um ou outro mais bem nascido, para nós, tal como praia significa Costa da Caparica, sumo é Sumol e Sumol é o de laranja. Não nega ter ouvido falar, por intermédio de um conhecido de um amigo, de uma outra bebida com o mesmo nome, mas de outra orientação palatina. Agora daí a tê-la experimentado alguma vez, vai um salto quântico.

Um Sumol não é só um simples Sumol, é mais que isso.
O Sumol é a cerveja das crianças.

A minha avó ia estoirar a reforma para a quermesse das rifas e o meu avô levava-me a tasquinar para junto dos seus amigos. Todos eles diziam asneiras e palavrões. Tinha que ser assim. Eram homens a conviver com outros homens e nenhum podia dar a entender que era menos homem que o outro.

O meu avô bebia uma imperial para empurrar um coirato no pão que teimava em não desenrijar. Eu bebia um Sumol para desembuchar uma bifana que insistia em continuar uma peça única de carne. Não adiantava morder com muita força, só me aleijava. Após a primeira dentada a febra vinha irremediavelmente inteira e agarrada aos dentes. Era obrigado a comer a carne toda de rajada. Ao fim de três dentadas, já só havia carcaça humedecida pelo calor e suco de bifana e, claro está, muita mostarda. Sempre foi assim e não havia volta a dar. Mais tarde fiz a introdução ao coirato através da entremeada.

O meu avô não estava mais que a passar-me o pelouro de adulto para que ele pudesse voltar a ser criança. Tinha essa missão. Existia uma cumplicidade e troca de papeis: o neto estava ali para se portar como um homenzinho pois estava ao pé do avô e o avô agia que nem uma criança por estar com o neto.

Na teoria, esta troca de papeis não faz sentido mas, uma vez visualizada a cena em toda a sua dimensão, torna-se óbvia. É uma situação em tudo idêntica ao Canal do Panamá, onde o Oceano Atlântico está a Oeste do Oceano Pacífico, dito não faz sentido mas, uma vez consultado o mapa, compreende-se a coisa.

A nossa idade mental é uma função sinc centrada no meio da nossa vida. Começamos e acabamos nas mesmas condições. A partir do ponto de maior maturidade mental e social, há uma simetria com tudo o que já se passou para trás. Percorre-se o caminho inverso para constatarmos que  acabamos outra vez crianças. Só é pena esgotar-se metade da vida a tentar crescer para depois se axiomar que é muito mais engraçado e agradável ser-se criança.

Se fossemos todos crianças certamente não existiriam guerras, apenas pequenas batalhas. Num dia andávamos todos à tareia à porrada, no outro éramos os melhores amigos para sempre.

É angustiante que esta passagem de testemunho de avô para neto, seja oficialmente selada com o conjugado de um nascimento e uma despedida eterna.


Lembro-me com saudade, do cenário habitual ao pedir o que queria ao sr. Virgílio durante as festas populares no CCL da Costa da Caparica:
- Então o que vai ser?
Perguntava ele.
- Eu quero um s'mol.
Aprontei-me a dizer.
- Eu cá quero de ananás!
Disse o David, desconhecendo que daquele momento a 20 anos, podia casar-se com outro que pedisse Sumol de ananás. A coisa não correu bem. A qualquer um que pedisse uma coisa assim mais "tropical" e "com calores", o sour Vergílio mandava logo aquele ar de "eu vi logo que este quando crescer vai dar em paneleiro". Retorcendo as palavras por entre os dentes, bramiu:
- Pois, de ananás não tenho... Querem fresco ou natural?

Era necessário meter uma certa atenuação neste "fresco ou natural". Se pedisse natural, vinha morno por estar perto do fogareiro (geralmente era um bidão de óleo de 225 litros cortado ao meio e umas vigas de aço soldadas a fazer de grelha). Se pedisse fresco a conversa era outra:
- Está fresco mas foi acabado de meter na geladeira, não está muito frio...
Que é como quem diz:
- A lata já lá está desde o ano passado, a arca é que tem o motor gripado.

O meu avô sempre foi uma pessoa sem preconceitos, afinal viveu muitos anos em Angola mas, o que certo é que, desde o momento em que pediu Sumol de ananás, nunca mais brinquei com o David.
- Não te quero ao pé desse, tem um pico a azedo... dali não vem coisa boa.
Avisou-me o meu avô. Nunca perguntei o motivo de tal imposição, mas senti que a coisa era grave.

O pai do David ficou tão assustado que, a conselho de vários amigos, internou-o nos Pupilos do Exército para ver se ainda ia a tempo de fazer dele um homem. Nunca mais vi o David.

domingo, janeiro 24, 2010

Promotionis Divinis

Na Idade do Ferro, as coisas funcionavam bem. Era uma sociedade justa.

A razoabilidade imperava e não existiam castigos nem punições. Aqueles que deviam ser condenados, seja por terem cometido algum crime, pecado, acto cobardia ou mesmo condenados injustamente por mera vingança pessoal, eram simplesmente promovidos a serem sacrificados para agradar os Deuses. Em vez da vergonha, era uma honra para toda a família. Ao invéz da humilhação, um motivo de admiração e orgulho pelos demais pelo seu derradeiro sacrifício.

Que revolucionária e magnânima idea. Dar alguém a sacrificar contra a vontade do próprio. Se a pessoa não se voluntariava para a oferta solene à divindade, era condenado por enfurecer os Deuses na forma tentada. Tinha então a pena adequada, ser sacrificado. Não havia volta a dar ao Destino Divíno. Era a única maneira de se conseguir fazer as pazes com as Forças Ocultas que regem as Leis Aleatórias do Universo.

Era um acontecimento bonito e uma causa nobre. Fazia-se uma grande festa em honra da oferenda humana. Coisa para durar mais de um dia. No fim e para terminar a festividade, o áuge de toda a comemoração. O anfitrião era sacrificado. Era o extase para todos os presentes. Uma excitação fisiológica tão violenta que mais se assemelhava à ejeculação numa gigantesca orgia colectiva.

Não era coisa de enforcar e dar por terminada a procissão. Era algo pensado e tinha método e rigor. Começava-se por cortava os pés bem rente para o anátema não voltar a andar sobre esta Terra. Não era para ele não fugir a meio, como se possa pensar. Era mais uma garantia que tudo ia correr pelo melhor. De seguida também as mãos era decepadas para o indivíduo ir de mãos a abanar (literalmente) para o Paraíso. Isto no sentido em que não se podia agarrar ao que é terreno. Ou seja, não se agarraria a nada deste mundo, para que nada o prendesse à profana vida terrestre. Ia livre para abraçar o que o Outro Mundo lhe tinha reservado. A seguir era decapitado lentamente por nenhum motivo em especial. Só porque a faca era pequena e romba e, já que estava suja e era preciso lavá-la de qualquer das formas, aproveitava-se a deixa.

Engana-se quem pensar que era tudo feito com uma qualquer faca vulgar. Não! Era usado um bonito e ornamentado punhal abençoado e furjado por um ou mais sacerdotes devidamente credênciados. Depois, na ferramenta divina, eram encrustadas conchas trazidas por viajantes, também eles convidados a agradar os Deuses, pedras coloridas e inscrições sagradas. Geralmente vernáculo ordinário porque eram raros os que estavam à vontade com a ainda recente ciência da escrita. Os sacerdotes limitavam-se a copiar textos que, também eles, já tinham sido copiados de outrem, perdendo-se o rasto ao verdadeiro significado da estranha combinação de letras.

Mais tarde, o coração era arrancado, triturado e espalhado pelos campos de cultivo como uma oferenda aos Deuses da Fertilidade. A rigor era mais para os pardais e corvos terem qualquer coisa que comer que não as valiosas sementes de cereais.

Para terminar, os restos mortais eram colocados cuidadosamente a descansar enterrados num pantano, para, um miléno mais tarde, serem descobertos nos campos de turfa da Escandinávia.


Homem de Tollund. Voltaram a meter-lhe a cabeça no sítio só para a fotografia ficar bonita.

Os nossos antepassados eram pessoas muito sensatas, sábias e equilibradas.

Era com muito gosto, comoção e até alegria, que assistia à promoção divina de alguns meus conhecidos. Eu mesmo os convidava para a nobre e sagrada distinção. Só não digo quem porque, ora não fiz as cadeiras que "leccionam", ora para não dizerem que gosto mais duns do que de outros. Não quero ser acusado de graxismo para posterior favorecimento. Dava-lhes esse prazer por respeito e estima, não para proveito próprio.

Para variar, e porque os tempos também já são outros, podia adicionar-se à colecção uma cabeça mas de cabelo encaracolado.

Na presente Era da Humanidade o mais razoável que se arranja é sermos os beneficiários do seguro de vida no nome de alguém e depois dar-lhe arsénico. A única dificuldade é fazer o dito seguro a nosso "favor" sem a outra pessoa, por quem temos inestimável estima, saber. Depois é convencê-la a beber o refresco bem bom de sabor acre.

domingo, dezembro 06, 2009

Alimentum Dolentæ

Há coisa de semana e meia estive um bocado achacadiço. Levei uma noite a vomitar e, no dia seguinte, estava todo partido com o esforço físico que estas provas desportivas de regurgitação exigem. Foi um momento patrocinado pela comida da cantina. A ementa toda ela, naquele dia em particular, era má. Coisa rara como se sabe. De repente e fora de contexto, apareceu um único tabuleiro cheio de feijoada. Do mal o menos fui para a feijoada e passei a restante tarde desconfortável. A indisposição foi escalando e assim que cheguei a casa, chegou ao topo do esófago. A vitória foi celebrada com um jorro de comida e bílis e um berro daqueles típicos de quem vomita. A intifada teve várias réplicas e o conflito apenas terminou a meio da noite.

Eu a vomitar (simulação por computador).

Fiquei desiludido comigo mesmo... homem que é homem nunca vomita. Quanto muito, vá, tem diarreia e apenas a "apanha" quando faz a tropa em África ou quando come uma rameira com bicho. Segui o lema "antes faça mal do que se estrague" e ia morrendo. Até agora o "faça mal" nunca tinha passado de uns breves e ligeiros fenómenos de gasoterismo.

Ao expor o problema de forma amigável na cantina, falaram comigo como se a culpa fosse minha, que fiquei com o estômago estoirado por querer: "Pois... vocês queixam-se todos que vomitaram mas o comer foi para análise e veio tudo negativo!"

Com esta frase fiquei a saber o seguinte:
- que não devem ter sido poucos os que ficaram mal. Já tinha tido conhecimento de outros que ficaram aflitos sem comerem feijoada, pelos vistos foram mais do que pensava;
- que "comer" não é só o acto de ingerir comida mas como também significa a própria comida legitimando a frase "comer o comer";
- o dito comer teve nota negativa a tudo e nem a Educação Física nem a Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC) se safou. Na primeira só os estupidamente gordos é que chumbam, à segunda só mesmo por faltas.

terça-feira, novembro 10, 2009

Benfica Benfica

Ainda se consegue ir à praia em Novembro graças ao calor monumental radiado do Estádio da Luz. O Benfica é o aquecimento global de todos os nossos corações.

Finalmente compreendo a expressão "O Estádio da Luz é um cemitério de treinadores". Pudera... cada treinador que lá vai mais a sua equipa defrontar este Benfica, arrisca-se a sofrer goleada e ficar lá enterrado.


Após marcar o quarto golo, Mister Jesus avisa os seus defesas:
- Quero os 4 em linha!

No entanto, o mister Jesus (o mesmo que transformou muitos ateus em católicos), de nada percebe de jogos de consola ou de tabuleiro. Como se pode ver no telefonema que me fez:


Confundido um jogo de tabuleiro com um jogo para jogar na consola. Ele não queria dizer Batalha Naval, onde os navios estão mais ou menos espalhados uniformemente no tabuleiro.


O Benfica já mandou um barco de quatro e outro de três canos ao fundo.

Ele por certo estava era a querer dizer Arkanoid, onde uma barra vai tabelando uma bola contra uma série de monos presos numa posição.


Trabalho moroso dos jogadores do Benfica a furar a defesa da Naval.
No momento final, tal como no jogo, as barreiras são furadas e a bola entra.

Parece que nada consegue travar este Benfica. Até os árbitros já encontram dificuldade em fazer com que o Benfica perca. A equipa adversária nem mesmo metendo todos os jogadores na grande área a defender, se consegue livrar de sofrer golos. Há sim é uma variação no número de golos marcados, nunca no resultado que é só um: uma vitória do Benfica à Benfica!

sexta-feira, novembro 06, 2009

Migrante di Dignitatis

Algo me perturba e transtorna profundamente o espírito.

Portugueses que em França exigem comemorações faustosas para o dia de Portugal, que os filhos aprendam Português nas escolas públicas francesas, vão todos os anos a Fátima cumprir numerosas promessas, que choram quando a Selecção Portuguesa perde com a sua congénere Francesa, fazem milhares de quilómetros para ver treinos e jogos da selecção e, acima de tudo o que lhes é mais sagrado, orgulham-se muito de serem portugueses.

Mas apre! Por que raio é que, mesmo com camisolas do Cristiano Ronaldo e toalhas de praia com a bandeira de Portugal... teimam em encher-me o juízo ao falar francês entre eles uma vez em Portugal e em especial na praia? É do hábito uma porra! Aquilo é francês mais martelado com português que os fundos do Elton John martelado com lingotes de Toblerone de carne. Não é só pelo sotaque que os descubro, até porque de francês sei menos do que o mínimo. Topo-os à légua é por deixarem escapar várias palavras em português, quer por descuido, quer por desconhecerem a tradução directa para francês.

Quando falam em Português é para dizer "a França é mais evoluída e todos se respeitam", enquanto empurram, pisam e passam à frente com ar indignado na fila para queimar velas no Santuário de Fátima. Também em Fátima fazem questão de, mais uma vez, falar alto dentro das igrejas, tirar muitas fotografias com flash (como se tratasse da passagem dos atletas num evento desportivo) e prosseguir com a maior das naturalidades. Mostram assim, sem qualquer pudor, uma insaciável apetência para pensar que só eles existem no mundo ou que o mundo só existe para eles, tudo o resto é cenário e figurantes.

Às tantas são mas é ou portugueses ou franceses da candonga, produto contrafeito cheio de imperfeições, acabando por não ser nem uma coisa nem outra. Não são coisa nenhuma.

E depois os nomes que dão aos filhos? À primeira oportunidade desmarcam-se das suas origens, camuflando o nome com a mesma eficácia que uma avestruz se esconde com a cabeça na areia, deixando o traseiro exposto. Isto para os chamarem com um sórdido orgulho só para mostrar que são eles os pais, enquanto os "hora de Inverno" mentais fazem remates para uma baliza improvisada por dois chinelos enterrados na areia da praia, tendo como fundos de baliza os banhistas e as suas toalhas. Se acertam em alguém tanto melhor. Vão buscar a bola com um sorriso triunfante como se o incomodado estivesse muito satisfeito com o trabalho feito. Nem desculpa pedem.

São então estes os mais frequentes nomes empregues (e não baptizados, porque nenhum presbítero que se preze, venera um Deus que receba esta gente no seu rebanho):
- Jean Michel;
- Jean Pierre;
- Jean Paul;
- Jean Jacques;
- Jean Sebastien;
- Jean Denis;
- Jean Emmanuel;
- Jean Frederic;
- Jean François;
- Jean Marc;
- Jean Louis;
- Ruben Micael (usado apenas a partir do terceiro filho);
- etc.

O que importa é que o réproba apátrida tenha Jean no nome para se julgar superior aos outros, demasiado importante para lhes falar. Estes amofinados apaniguados deviam ser alvo de bullying intenso para se tornarem homenzinhos. Mas isto sou eu que, pela amizade, quero o melhor para as pessoas, custe o que custar. Se vocês querem continuar a tratá-los com desvelo, é problema vosso, depois não se queixem.

Tenho grandes amigos imigrados nos Estados Unidos, Roménia, Moçambique (mas não lhes falo) e Reino Unido e nenhum me vem com estas chalaças e falsidades. Tive a felicidade de conhecer um emigrado em França mas não lhe dei confiança. Digo felicidade porque só veio comprovar que eu estava certo na minha razão. Tinha aquele ar de mania da superioridade, tudo "lá na França" é muito melhor e de lá ninguém o tira mas, na mesma frase, remata com um "ninguém me tira a aldeia dos meus pais, é aí que gosto de estar". Só se for para ver velhotes pobres no meio de uma aldeia com 23 habitantes no Inverno e 314 no Verão, 272 deles emigrantes em França e 19 no Luxemburgo, e pensar "como estou bem na vida, estou melhor que o Portugal". Bela amostra essa para generalizar todo um país. Apesar de não sermos um país de elite e termos os nossos problemas, não nos vestimos todos de preto, não vivemos todos em casas de pedra e, acima de tudo, não somos surdos nem lentos intelectuais para nos gritarem ao pé dos ouvidos. Para mais, com uma conversa de auto-elogio, num só sentido para que, quando o outro interveniente se tenta expressar, com uma resposta de desconsideração certamente, sorrirem com misericórdia e pena, faltando só afagarem-lhe a moleirinha com palmadinhas.

Estes umpa lumpas mentais, são os que falam mais alto na praia e olham sempre em redor, nunca entre eles. Numa de verem o quão impressionados estão os outros por eles serem "franceses". Os outros olham mas fazem-no com ar de reprovação, porque estão fartos da algazarra vinda destes fuinhas assaloiados.

Os únicos que eles impressionam são os mesmos que chegam a Portugal vindos dos subúrbios de Paris, num Citröen Xantia ou Renault Safrane sobrepopulado de gente, tralhas e um caniche a padecer com uma nevrose provocada pelo cio. Ou seja, isto tudo para dizer que só impressionam os que são iguais a eles mesmos, comparando-se exaustivamente enquanto fingem que se ignoram mutuamente. Faz parte lá dos rituais deles... tipo as aves na primavera.

Tal como os salmões que sobem o rio para nidificarem onde nasceram, morrendo de seguida, também esta espécie de francês (ou português, ou o quer que seja isto), escolhe o Verão para se vir reproduzir na aldeia de origem, matando-se de seguida nas estradas ibéricas Muito sinceramente, é preciso ter lata... Por isso é que as nossas estatísticas rodoviárias são sempre tão negras. Não é a meter radares e a passar multas aos de cá que a coisa vai lá. É preciso é filtrar as fronteiras e evitar que o mal cá entre.

Cá para mim, resolvia o problema de forma muito simples e pouco trabalhosa: como as praias da Costa da Caparica estão com falta de areia, era enterrá-los na praia para fazer altura e depois despejar a areia por cima. Ou então, para não complicar e tornar célere o processo, era pegar neles, metê-los num saco de plástico daqueles pretos, dar-lhe dois nós bem fortes e... Tejo!

sábado, outubro 10, 2009

"Alto e Pára o Baile!"

Estava eu há pouco a desenvolver o meu carácter enquanto aluno universitário, frustrando-me a preparar um laboratório, quando me deparei com esta notícia:

"Explosão de camião-cisterna faz 80 mortos"

Pelo menos 80 pessoas, entre as quais 18 crianças, morreram depois de um camião-cisterna explodir, esta sexta-feira, na Nigéria, noticia a EFE.

Segundo a imprensa nigeriana, o veículo caiu na estrada e derramou a gasolina que transportava. Os automobilistas começaram a parar para roubar o combustível, até que um polícia disparou para o ar para dispersar a multidão. Terão sido estes disparos a causar a explosão.

O número de feridos graves ainda não foi determinado.

A explosão causou a destruição de nove veículos, entre os quais um autocarro escolar.


Há que, antes de mais e acima de tudo, tirar o chapéu ao sentido prático e rápido raciocínio deste polícia. De alto gabarito. Evitou um variado cardápio de chatices e complicações com uma só acção.

Sabem o que é um só sr. agente ter que prender 80 pessoas? Já pensaram o que é levar sozinho 80 pessoas para uma esquadra pequena e sem condições? Quantas viagens de carro são precisas? O tempo que se ia demorar a preencher papelada para 80 autos? Era preciso para cima de meio Estádio da Luz em horas para isto ver um fim. Digo 80 pessoas em módulo, ignorando a fase. Quero com isto dizer que não é por serem 80 nigerianos que isto iria ser uma grande maçada.

Depois cada inquérito era o que já se sabe, se é demorado em Portugal, imagine-se na Nigéria... e ter que alimentar 80 famintos a meias de leite e pães com manteiga era uma despesa maior que o próprio orçamento anual para a polícia.

Assim despachou (literalmente) todos de uma vez, incluindo o próprio para não ter que responder a nenhum superior, e ficou tudo tratado de uma vez. Sem esperas, sem adiamentos e sem burocracias. Quase tão eficiente e eficaz como a força de ataque do Benfica nesta época.

Um exemplo a seguir sem dúvida.