terça-feira, fevereiro 05, 2008

Circus Maximus - Palhaçæ Inutilis

Heis algumas das manchetes dos jornais da semana passada:

"Tigres fogem de carrinha do circo. Trânsito cortado na Nacional nº 3.".

"Tigres à solta na Azambuja atormentam locais."

"Recessão económica Norte-Americana provoca descida de tigres à Azambuja".

"Tigres devoram idoso deficiente na Azambuja. Ver para crer!"

"Forcados do Sport Lisboa e Cartaxo pegam 2 tigres na Azambuja. Paulo Bento vai ao bruxo."



O alarmismo aumenta o galope conforme o jornal em questão e cada um distorce a realidade à sua maneira.

Não era questão para tanto berreiro. Não havia necessidade de chamar a GNR, ainda por cima em horário de almoço. Eles não estão preparados para este tipo de serviço. Bastava mandar dois anões, carecas e peludos de dorso, intervir no local e o assunto era resolvido com a maior das serenidades. Ocorrem-me, assim escolhidos totalmente ao acaso, estes dois nomes:

Mal-Oh Machado e Arthur Lopez Ribeiro.

É mesmo este o nome deles, não fui eu que os alterei com medo que os ditos, recorrendo a um motor de busca, dessem com este texto.


Tigre vai ao banho no rio Tejo com o intento de se refrescar.

A sua preparação para a obra era do mais simples que pode ser concebido. Besuntavam-se um ao outro, evitando assim o envolvimento de terceiros, com o molho resultante de assar pernil de cabrito no forno. Seguidamente disfarçavam-se de ovelhas (da mesma forma que o mais sano dos imperadores, o imperador Calígula, filho de Germanicus e sobrinho de Tiberius, obrigava os cristãos aprontarem-se antes de os mandar para a arena). Para eles encararem com maior seriedade o seu papel de ovelhas, antes da entrada em cena, eram levados ao local, com o intuito de cobrir os dois heróis, dois carneiros de grande porte. Tal como os cães que dão dentadinhas de amizade no pescoço das cadelas (ou nos braços dos donos), os carneiros em cada investida, davam-lhes uma marradinha de afecto na nuca.


Um dos carneiros observa potenciais rivais ou pares.
Uma análise mais cuidada da fotografia, permite concluir que ele olha na direcção do
espectador
.

Depois deste ligeiro procedimento, o Mal-Oh e o Arthur eram instigados contra os tigres.


Se os nossos (nossos uma porra) intrépidos guerreiros não se safassem, garanto-vos que não se perdia nada. Aliás, ganhava-se com a poupança da alimentação dos animais.

O Lopez Ribeiro não serve para nada. Até eu, que estou há menos tempo neste mundo, disfarço melhor quando não sei fazer nada, pelo menos sempre me esforço um bocadinho. Quantas vezes dei por mim a tentar copiar pelo colega do lado, ou pelo da frente, ou mesmo pelo de três mesas atrás, mal o exame tinha começado. É uma coisa do instinto, algo involuntário que assim o é programado para a nossa própria sobrevivência. Ele nem para isso presta, nem para medíocre está qualificado.

Durante uma revisão de prova de uma disciplina na qual ele era o regente e leccionava as aulas teóricas (lia os acetatos... eu também sei ler e, de qualquer das maneiras, não é a ouvir o serviço meteorológico que se aprende Meteorologia), esteve a olhar para o monitor do computador durante o penoso tempo que lá estive. Enquanto isso, o outro professor, que só tinha turnos de laboratório apesar de ser o único que mostrava saber do que se tratava na cadeira, atendia os alunos. Certamente que o regente lia um artigo científico de elevada importância e interesse.


Arthur ao computador é um cenário de fundo constante.
Aluno pisado mentalmente até ao desespero.

Até que começou a abanar a cabeça na vertical de uma tal forma que me levou a crer que algo mais se "passava" naquele monitor. Julguei mesmo que ele estava a ver este vídeo:



Qual não é o meu assombro, quando me aproximo esquivamente, e dou com ele especado a olhar para o monitor onde apenas se encontravam os ícones normais num ambiente de trabalho em Windows: a "Reciclagem" e "O meu computador".


Já que não queria sair do computador, para desmontar um osciloscópio só para ter que montá-lo outra vez e mostrar que estava ocupado, ao menos que visse qualquer coisa com sentido. Qualquer coisa que justificasse esta postura em frente ao computador:


Arthur Ribeiro refastelado na cadeira.

Se ele estivesse a ver o vídeo que se segue, por exemplo, teria a nossa total compreensão. Nas mesmas condições em que o docente se encontrava, qualquer homem teria feito o mesmo ou pior. Mas na altura em que ele se tinha arrimado para trás, já o monitor estava desligado há muito como se pode observar pela fotografia anterior. Porque continuava ele a olhar para lá? Será que ainda acreditava que nos enganava? Ou será que já nem se dava a esse trabalho?





O outro professor que aparece na fotografia, que era o único que percebia alguma coisa do assunto, ao falar com os alunos utilizava uma linguagem polida que fica bem em qualquer engenheiro. Tão polida que já nem tinha verniz, era só o rude ferro com a pintura toda estragada.

"Eu demoro mais tempo porque esta merda está toda baralhada..."

Escapou-lhe - pensei, enquanto o professor procurava o meu exame. O exame estava dividido em molhos separados por grupos. Um colega tinha um número parecido com o meu, com o qual o professor me confundiu. O professor vasculhando já no segundo grupo de exame, voltou a escolher o exame do meu colega pensando tratar-se do meu:

"Ah fouda-se... este é o do outro cabraum..."

Disse ele com um discurso sonante e pausado por forma a garantir que todas as silabas fossem bem interpretadas. De salientar que se aquele era o "outro" há mais daqueles entre nós alunos.


Quanto ao Mal-Oh, que aparece descaracterizado na fotografia abaixo colocada, também não há muito mais a fazer por ele.



O Mal-Oh, com o seu molestante bafo, embacia-me a lente da máquina de forma irremediável.

Cada vez que o Mal-Oh abre a boca para falar, na minha mente projectam-se imagens do circo Atlas. Não tanto por o Mal-Oh ser um palhaço a falar, mas sim pelo cheiro característico dos bastidores da tenda do maior espectáculo de variedades do mundo que é emanado da goela dele. É uma mistura de difícil separação mas aonde ainda é possível discernir a presença de estrumes de vários e variados animais. Entre eles: os elefantes, os burros, os dromedários, os macacos e os palhaços e anões (como os dois valentes aqui tratados neste texto) que, tal como as outras feras, também deviam guardados em jaulas.

sábado, janeiro 05, 2008

Lisboa - Dakar 2008

Este ano não há Dakar. Que imensa frustração, revolta e que desilusão amarga. Estou de luto.


O Mosteiro dos Jerónimos na hora do desengano.

Eu e o meu camarada Zé o Grandalhão, já tínhamos tudo preparado para assistir ao Dakar.
Com a devida antecedência arranjámos transporte para nos levar a Canha para assistir a um troço cronometrado. Fomos na Quinta-Feira de madrugada, à Praça do Monte da Caparica, roubar uma Ford Transit a uma família cigana que vendia droga dissimulada em caixas de peixe.


Ford Transit requisitada para nos levar a Canha.

De salientar os elevados índices de maxú: fazer as coisas pela fresquinha da madrugada, Praça no Monte da Caparica, ir ver o Dakar numa Ford Transit, que era roubada, era de ciganos, era roubada a ciganos e serviu para transportar droga e peixe.


Caixa de sardinha com cocaína escondida.

A anulação do Dakar foi motivada pelas preocupações de segurança na Mauritânia, referiram mesmo «ameaças directas lançadas contra a prova por movimentos terroristas».


Terrorista tenta avistar participantes do Lisboa-Dakar.
Repare-se na posição de guarda do camelo para permanecer despercebido no meio da densa vegetação.


São franceses... o que se pode fazer? Nem nas guerras mundiais participaram... tiveram que ser os outros a lá ir combater uns contra os outros para dar algum ânimo ao país.
Devem ter gasto toda a virilidade com o Napoleão Bonaparte. Até o Maximilien Robespierre era maricas, em vez de andar à tareia com os inimigos até um morrer, mandava-os para a guilhotina. Qual é o gozo?

Enfim, adiante.


Quais são os pilotos (e suas equipas) que fazem um Dakar (a prova) pela segurança?

"Não gosto de corridas nem de automóveis, para mim são todos iguais. Vou participar num Dakar só mesmo pela segurança".

A súcia vai é à procura da emoção de tourear a morte de perto. Quer atravessar um campo minado a 200 km/h, quer atravessar Marrocos solteiro sem chegar à outra ponta casado com três mulheres. Quantas mais variações e surpresas existirem pela cruzada, mais alvoroço e adrenalina a alma sente.


Afinal, quem representa mais perigo a quem?
A Elisabete Jacinto aos comandos de um MAN ou uma barricada de terroristas magrebinos?


Bandido a interceptar Elisabete Jacinto.

Vou refazer a pergunta, uma mulher a conduzir um camião de 5 toneladas de aço num piso sem aderência, ou três homens indefesos que, para intimidar, têm duas espingardas de carregar pela boca (sendo uma delas de imitação), com um lama (com mais dentes na boca que os três homens) a cortar caminho e que está assustado por estar em África sendo ele da América Central?


Lama em aflição, habilmente disfarçado de camelo.

"Olhe... como é que esta geringonça se trava para eu dar um autógrafo a estes queridos que vieram de tão longe para me ver".


Elisabete Jacinto abranda o andamento.

A meio desta frase, e enquanto a Elisabete olhava para os pedais, já os desgraçados tinham sido atropelados sem ninguém dar por nada.

"Olhe... parece que desistiram da ideia. A poeira deve-os ter afugentado".

Diria ela com muita manha por saber exactamente o que acabou de fazer. Tinha que ser assim, não haveria outra maneira senão avançar, literalmente, pelo problema. No Dakar o relógio não pára.


Últimos momentos dos terroristas aquando da passagem da Elisabete Jacinto.

Outro exemplo:


"Não o conseguia ver no meio de tanta areia".
Quem é que acredita nesta cara de malandro?

O Carlos Sousa, num VolksWagen Touareg, que no ano passado deixou o co-piloto alemão durante uma hora, algures no deserto no meio de uma tempestade de areia só para mostrar quem manda, ou um desgraçado com um turbante, a cavalo num camelo (não sei como se diz e "a montar um camelo" soa a esquisito) com uma cimitarra na mão e a gritar em vibratto feito Tarzan?



"Alto e pára o baile!"
Grita o terrorista tentando travar o Carlos Sousa.


Digo mais, qualquer medida de segurança devia ser abolida do Dakar.

Só piora a prestação dos pilotos, que vão a medo, e dos próprios carros que ficam mais pesados.

Se alguém ficasse marcado para o resto da vida, era beneficiado em tempo. Se o Cyrril Després chegasse primeiro, mas o Hélder Rodrigues chegasse em segundo lugar com 20 minutos de atraso, porque caiu e ficou sem uma das pernas, o Hélder ganhava a prova. Nas novas regras cada perna perdida daria um bónus de 30 minutos. Aliás, aprecio bastante a perseverança e intrepidez do Hélder Rodrigues. É um piloto à antiga. Prova disso foi o Rally da Patagónia-Atacama em Setembro de 2007, quando, a 160 km/h, foi ao chão.


Hélder "Cabeça Heterogénea" Rodrigues pronto para outra.

Entrou no hospital com várias costelas partidas, uma ferida na zona do tórax, uma hemorragia pulmonar, uma anemia por ter perdido muito sangue (tinha dois litros e meio de sangue na região abdominal) e ainda com o baço afectado. Esteve em coma e ligado ao ventilador durante uns dias. Que é feito dele? Estava ansioso por partir para o Dakar até hoje de manhã, quando os franceses o decidiram cancelar por motivos de segurança... apenas três meses foi o que ele demorou para lograr a própria morte, recuperar, preparar e estar pronto para o Dakar, para apenas numa manhã ver tudo cancelado. É como se lhe negassem a própria vida. Quem se julgam eles para falar "de segurança" ao Hélder? Quem se julgam eles para nos tirarem um Lisboa-Dakar?


Franceses reunidos onde ninguém lhes podia chegar e "contestar" a decisão.

Piloto que morresse no Dakar, era consagrado campeão. Se morresse mais que um, que ganhasse o que tivesse o acidente mais espectacular e aparatoso.


Não é justo que alguém que dê tudo na arena, não ganhe só porque morreu. Os mariquinhas deviam ser penalizados.


É como um veterano de guerra não ter nenhuma marca para mostrar. Provar que esteve lá. Se não tiver meia cabeça reconstituída e uma perna em acrílico, quem é que acredita nas façanhas que eles relatam? Ninguém, só os parolos. A ideia com que se fica é que era um daqueles que ficava a fazer-se de morto na trincheira enquanto os outros entregavam o peito às balas (como eu hoje no exame de Instrumentação e Medidas. Deviam diagnosticar cancro nas testículos do professor mais gordo que lá estava, fazerem-lhe uma castração total e, no fim, o médico ter-se enganado e ele não ter nada (literalmente) só para ver se ele continuava a ridicularizar os erros dos outros). Ou então nem do Quartel saiam porque se faziam de doentes ou, pior ainda, tinham cunhas.

Enfim... não fosse irmos todos presos, sugeria a união popular para irmos todos atrás dos franceses. Uma turba com bastantes forquilhas, tochas e paus a erguerem-se pelo meio da multidão. Um tumulto popular lançador de pedras. De salientar que as tochas não servem para iluminar as ruas, que se ilumimam por si com o pavor vindo das caras do inimigo, servem sim para puxar fogo às coisas.


Representação da boa justiça popular.

Vamos lá ver o que nos espera para o ano. Para este, ficam só algumas fotografias para recordar edições anteriores do Lisboa-Dakar. Fotografias essas que roubei ao Zé Narciso, o Grandalhão, e que estão presentes ao longo deste post.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Natale Sine Prenderas


Um Feliz Natal para todos. Em especial para os professores de quem eu não gosto. Desta forma tento deixar uma porta aberta para o bom entendimento entre todos nós. Afinal, é para isso que serve o Natal.

A eles lhes desejo um Natal próspero, cheio de doces, guloseimas e muito açúcar.


Podia ficar por aqui, mas penso que poucos são os que conseguem alcançar a profundidade da mensagem.

Que esses professores, que até aqui eu não gostava, comam tantas doçuras que, sentirem-se mal, é uma inevitabilidade lacónica:

- Isto até amanhã passa... vou descansar e logo se vê.

Ora acontece que no dia a seguir, estão todos na mesma e decidem ir ao hospital. Depois de três horas à espera de serem chamados e de mais duas horas para receberem o resultado das análises, são atendidos por um médico espanhol que os informa (individualmente, claro está) com ar preocupado, por não saber como há-de dar a notícia:

- Óh-lah-lah... Usté tiénes lós diabés upalá upalála!

Que, para quem não domina um espanhol fluente como o meu, significa:

- Que diacho... você tem os diabetes altos.

E dito isto cortavam-lhe os dedos mindinhos pelos ombros.


Passados três dias de repouso podiam aparecer lombrigas, resposta impulsional ao escalão unitário de nome "açúcar", que vem com algum tempo de atraso.
Era vê-los, sem braços, com uma coceira no refego das entre-nalgas de os levar a uma insanidade lancinante, e não conseguirem apaziguar vigorosamente a ânsia com as unhas, até fazerem ferida.


Este modelo de "Feliz Natal", que desejo aos professores que, no passado, não gostava, não se aplica ao professor que é igualmente merceeiro. O desgraçado desmaiou na minha sala do teste de Fundamentos de Telecomunicações. Enquanto nos controlava e fazia o mapa dos alunos (para posterior comparação de provas para ver quem copiou) tombou e lascou um corno ao embrulhar-se de cabeça contra uma cadeira. Palavra de honra que não lhe estava a rogar pragas. Estava a mandar ao outro, esse sim, mas a este não. Não percebo.

domingo, julho 22, 2007

Homine Futebolis Totale


Márinho é o "homem-futebol", o atleta do momento de quem todos falam. Ele eclipsa a própria sombra (não percebi ao certo o que escrevi mas o feito soa a grande).


O Emblema do Coina

Apanha o 302 na Baixa da Banheira, aonde vive com os pais, o tio e a avó materna, com destino ao Fogueteiro. O seu lugar na camionete é o mesmo de sempre: em pé junto ao motorista para trocar os habituais dois dedos de conversa. Estorva quem entra, mas está longe a má intenção.



302 para o Fogueteiro parado no terminal.

Antes ia sempre a rasgar na sua BWS (o raio da scooter deve ter sido feita a pensar nos anões ou nos putos que andam de mota antes dos 16 anos) para os treinos. Com as chuteiras, compradas na drogaria do sr. Alberto com o dinheiro de dois natais, atadas uma na outra e penduradas à volta do pescoço lá ia ele de sorriso na cara, deixando um infindável rasto de fumo e cheiro a óleo queimado. Mas, depois de lhe a roubarem à porta de casa (um dos primos é que teve sorte, na mesma semana comprou uma mota igualzinha à dele por muito bom preço), vê-se obrigado a aceitar o caloroso convívio do tão prático transporte público.



Márinho sempre bem disposto. Aqui ainda na sua BWS.

Ainda há pouco tempo, uma senhora de meia idade que nunca se poupou na sagrada hora da refeição, ao deslocar-se no corredor da camionete, desequelibrou-se com um travagem mais repentina (louvável manobra do motorista que evitou atropelar um grupo de cinco cães que, mijando pequenos jactos de urina em tudo o que tivesse forma e existência, seguia cegamente uma cadela com cio). Com a aflição de uma queda eminente, tentou amparar-se no Márinho que, com o instinto de goleador que lhe corre nas veias, a fintou com uma simulação de ombros à Jardel. A velhota coitada, que estava de férias com a neta mais nova no Clube de Campismo de Lisboa (que raio fazia ali a velha? O CCL ainda fica longe), apesar dos inúteis movimentos desesperados dos braços (que se assemelhavam bastante a vigorosas braçadas de crawl), não evitou enfiar-se pelo meio dos bancos que nem um polvo numa estreita gruta à beira-praia, com os seus tentáculos a contornar as superfícies da rocha.



Polvo de grande porte camuflado na rocha.

Acabou por partir a placa dos dentes e rachar bacia. Agora tem uma prótese e anda com duas muletas. O Márinho, com o seu bom coração, retira todos os meses dos seus 200 euros de ordenado, uma parte para ajudar a D. Elvira nos seus dispendiosos tratamentos.

Como qualquer outro dia de treino, toda a viagem de carreira com aquela direcção, acaba em Covas de Coina aonde o Márinho sai a correr para o campo meio pelado meio plantado do seu clube, para se adiantar no aquecimento.



Campo de futebol do Coina.

A sua camisola só pode ter um número. Aliás, jogar com esse número é a única condição imposta ao clube no contrato feito pelo seu empresário (que é igualmente o padrinho de casamento dos pais). Esse número é o 76, o ano da Revolução, algo que é muito próprio, especial e importante (três palavras para dizer a mesmíssima coisa) para o Márinho. Importante será também não lhe dizer o verdadeiro ano da revolução, para não desmotivar o seu valioso espírito ganhador.



Item de coleccionador raríssimo e de valor inestimável autografado pelo Márinho.

O treinador, gordo, careca e com bigode, empenha-se pelo empenho dos seus jogadores. Usa um fato de treino, cujo fecho eclair faz marreca à frente, tem duas riscas laterais brancas e é lilás e laranja. O mister gosta de observar os seus pupilos a tomarem banho, chegando mesmo a fotografá-los. Incentiva o uso do chuveiro aos pares para dar "melhor" ambiente ao balneário, traz espírito de equipa e, além disso, poupa-se água. Antes de cada jogo, o mister, que faz também de massagista, esfrega vigorosamente as virilhas dos seus atletas com chocolate líquido para bolos para os seu valiosos jogadores não ficarem assados naquela zona com o esforço. Quando se deslocam para longe (à margem norte do rio Tejo, por mero exemplo) em jogos oficiais, o Márinho é sempre o escolhido para ficar no quarto do treinador. Márinho, ingenuamente e sem saber do que se acaba de salvar, recusa sempre. Prefere a camaradagem dos seus colegas. Estar a dormir na mesma cama do mister poderia demonstrar algum favoritismo e isso só iria enfraquecer a união da equipa. Apesar do seu futebol de elite, o Márinho não treina nem joga sozinho. O Márinho dá tudo pela equipa. A unidade faz a força e o Márinho dá muita força à unidade.



Um por todos e todos por um.

O patrocínio da pastelaria de fabrico próprio, "Boca Doce", para além da saudável estabilidade financeira ao clube, traz também o pequeno almoço e lanche dos jogadores e dirigentes. Para breve espera-se uma acção publicitária para a pasta dentífrica medicinal Couto, toda ela centrada nas habilidades do Márinho.

Márinho, sempre sorridente e confiante, vai dando leves toques de cabeça na bola enquanto o locutor profere as qualidades do produto para a higiene oral dos campeões. Os telespectadores, abismados como as maravilhas acrobáticas do Márinho ficam como que hipnotizados e a mensagem é-lhes escrita directamente no inconsciente, tal como uma mensagem subliminar. Para terminar, o Márinho, sempre a fitar o olhar atento da câmara (que também é o olhar atento do espectador), com um certo ar de triunfo de quem ainda tem mais alguma para nos surpreender, ampara a bola no peito e passa-a de bicicleta ao assistente que se encontra protegido atrás do caixote filmante. "Palavras para quê? É um artista português". De salientar o perigo que é passar uma bola de bicicleta sem desviar o olhar de quem o filma. Qualquer outro Cristiano Ronaldo teria partido e dado um nó ao pescoço nesse mesmo instante.


Pasta dentífrica Couto.

Às Sextas-feiras à noite, vai ao "Master Bar" em Almada (não confundir com o outro de nome homofónico) para assistir ao espectáculo "He's a Lady". Apesar da variedade e de nunca terem um set repetido, é lá o poiso de uma grande estrela. Uma pavoa de nome artístico Ofélia Dná Salarga. Não que o Márinho seja grande apreciador do género, muito pelo contrário, vai com a mesma intenção dos que param para observar acidentes com feridos graves. O Márinho procura a sensação só explicável quando o horror bate à porta do choque e pede licença para entrar.



Artista transformista ao rubro e em plena actuação.

O Márinho vai para casa incomodado e, ao menos tempo, com um certo alívio de tudo aquilo não ser com ele. Por contraste, a contemplação bizarra dá-lhe um certo ânimo para enfrentar as adversidades do campeonato.



Ofélia Dná Salarga embora a cara, com a maquilhagem, esteja diferente.

O Márinho sonha entrar um dia na ribalta de uma liga estrangeira, sonha jogar no Huelva, esse dínamo do futebol mundial.

Esperam-lhe bons anos ao serviço do Coina, com muito esforço, dedicação e suor. Espera-lhe uma transferência para o Vila Real (de Santo António) e com um golpe de sorte, ver as suas qualidade apreciadas por um observador espanhol. Será toda a impulsão necessária para o almejado salto para o Huelva.



A futura casa do Márinho.

No fim, só deseja ver o seu trabalho de uma vida ser recompensado com um simples aperto de mão do Paulo Futre, seu ídolo desde criança.



Paulo Futre Total.

O Criador lançou à Terra um prodígio futebolístico destes (o Márinho) e nós só temos que agradecer assistindo ao milagre das suas exibições.

Júlio Universal

Neste momento, que me julgo acordado, apercebo-me que dificilmente serei um pescador numa sociedade tão saudável e magnífica como a visualizada no meu sonho.

Não é por isso que se deve deixar de sonhar.

Cá para mim (podia ter dito só "Para mim", mas assim a coisa soa com mais confiança e certeza no que se diz), qualidade de vida podia muito bem ser estar numa marquise a comer caju e a beber laranjada do lídl (daquela que nos deixa a boca em sangue de tantas aftas e outras maleitas nas gengivas e céu da boca), sentado, só em cueca larga para deixar os colhoates à vontade, de janela aberta para entrar ar f'esquinho e a ouvir Júlio Iglesias num aparelhame estéreo hifi com duplo deck para cassetes.


Tenho grande parte da discografia dele e cada vez sou um fã maior (fonte segura informou-me que ele, em pleno concerto, dá beijos na boca das bailarinas, todas elas novas e bem parecidas). Ao ouvir a bela música do Júlio Iglesias, encara-se a vida com alegria, confiança e paixão.
Ele é o amante universal.


O Grande Júlio Iglesias.


Que belo que é. Parece que se está de férias no sul de Espanha num hotel de duas estrelas e meia, melhor que muitos de 5. Em regime de meia pensão, com bailarico no pátio da piscina pela noite dentro, nada nos falta . Às vezes chega a ser dez e meia da noite e ainda há lá gente a dançar. Senhoras lindas e bem arranjadas, que é como quem diz pensionistas cujo perfume é laca para o cabelo e que dançam juntas. Aqui, nestas festas espanholas, não há bêbados a dançar sozinhos nem "quermesse" de rifas, os homens não saem é das cadeiras para não perderem o lugar na "esplanada". Mesmo assim não é um pezinho de dança que vai matar alguém. Não há sitio melhor para o fazer que o baile de S. João que se dá todos os anos na Trafaria. A música é bastante agradável e de tanto dançar tenho que ajeitar as calças para dentro das meias.



Toda esta sensação e estado de espírito são sentidos só a ouvir o Júlio, mesmo estando num T0 na Costa da Caparica, num prédio com vista para o mar. Para sermos rigorosos, a praia só se avista do terraço do prédio e o apartamento em questão está voltada para o terminal da rodoviária na Torre das Argolas.
Na altura da compra era bem mais em conta e o que importa é ter uma casa de férias ao pé do mar para se repousar um bocado.

Mas não é só de inércia que se faz o descanso, é necessário um pouco de exercício às vezes para arrebitar a molécula. Caribe Mix nos fones com o walkman (ainda sou do tempo em que a cassete portátil era uma modernice, agora um radio cassete portátil com MP3 seria o exponente máximo da tecnologia) atado ao braço, téni (escrito no singular está bem) Sport com meia branca até ao joelho (não é preciso ter raquetes desenhadas, meia branca já é à desportista o suficiente), t-shirt de manga cava com publicidade a um qualquer evento desportivo da década de 80, metida para dentro do fato de banho slip com padrão tigrado em verde e roxo, óculos escuros espelhados para a neve e uma pala para o sol para a moleirinha continuar exposta ao astro divino. Isto tudo para correr num parque de estacionamento ou no terminal das camionetas. Para a marginal de Belém é preciso atravessar o rio e tem muita gente para se estar a treinar à vontade.


Tecnologia de ponta.

Um moderno relógio digital Seiko é indispensável para contar o incontável quando se corre pelo asfalto fora.


O relógio digital Seiko usado nos treinos.

Duas vezes por semana apanho a carreira, com escala no Pragal, para Covas de Coina para ver bom futebol.


Carreira que parte da Torre das Argolas com destino ao Pragal.

Admirar a ascensão do "Profeta do Esférico" como é conhecido o Márinho, a estrela do Grupo Desportivo Das Covas De Coina.