segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Extremus Faex

Tal como tinha lido no horóscopo da Maya que vinha na revista Vidas, que veio com o Correio da Manhã de Sábado e cuja capa era o Cristiano Ronaldo em tronco nú (assim de rajada uma quantidade de coisas de relevante valor cultural), esta semana não ia ser boa... não o digo pelos textos, que com a sua vastidão me deixaram sem saber que catástrofes aguardar ("gaste todas as suas energias para superar restrições e evite excessos para não se cansar"), mas sim analisando os smilies atribuidos a cada um dos dias (apenas a Sexta-feira me é favorável). Ainda por cima para além de recomeçar as aulas e, como se não fosse suficientemente mau, ainda as começo com início de constipação. Para dar as boas vindas ao novo semestre fui almoçar à cantina com mais uns colegas. Como é sabido, no início das aulas andamos todos meio aparvalhados, mas uns superam os outros (neste caso em concreto, em vez de aparvalhado (que também o é), é mais apassarinhado)... foi descoberto um local que fica entre a estação de metro do Campo Grande e o fim do Jardim do Campo Grande, que se chama Churrasqueira do Campo Grande e que no entanto não fica no Campo Grande porque, seguindo a justificação do mesmo, "[palavrão acabado em "sss" e a começar em "f", com "oda-" no meio] o Campo Grande é grande!". Não tenho mais nada a dizer sobre isto.

Já várias foram as vezes que leitores interessados me perguntaram para quando um novo texto. Apesar de ter estado de férias, ainda estou meio aturdido pelo último semestre e como não tenho andado muito acompanhado, tudo o que me passa pela cabeça está estritamente relacionado com o tema principal deste post. O mal todo é que nem tenho capacidade crítica para ajuizar o que lá vem.

Após esta pesada introdução tornou-se óbvio que me preparo para fazer uma profunda análise a uma vasta gama de produtos "alimentares" que permitem, desculpem a expressão frequentemente utilizada pelo povo, "cagar macio" e a "tempo e horas".
Falo dessa vasta qualidade diferente de alimentos (apesar de serem todos a mesma "porcaria") que vão desde cereais e barras de cereais (tão insipidos e secos que de certo estão relacionadas com a seca que se tem sentido ultimamente e envolvidos directamente em muitas amarguras do povo português), iogurtes nas suas variadas formas (os líquidos vêm em recepientes tão pequenos que são necessários 4 para enganar a sede, deve essencialmente dever-se ao facto de serem uma matéria mais rara e cara que o petróleo, sim... com o preço de uma "garrafa para pigmeus" da dita substância posso comprar quase um litro de gasolina) até chocolates (geralmente o anúncio mostra um grupo de amigas, que transparecem ser mulheres modernas e evoluídas, e, no meio de uma alegre confraternização, há uma que se recusa a comer um bombon agarrando nas inxundías como quem diz "que está gorda", depois de uma breve explicação com meia dúzia de termos semi-técnicos (que nem o director da fábrica dos chocolates sabe o que são) por parte das amigas, já se lambuza nos chocolates, apenas faltando ficar com o aspecto de um puto a que foi oferecida uma tabelete numa tarde solarenga de Verão) todos eles têm uma coisa em comum, para além do hipotético efeito, apenas resulta se administrados com regularidade em enormes quantidades, ou seja, basicamente todos os dias até que aconteça um dos seguintes: saia nova versão no mercado que substitua a anterior, estudo independente (por empresa que se desmente rapidamente e reconhece que afinal aquilo até faz bem ou então fecha misteriosamente) que prova cientificamente que tudo não passa de uma farsa capitalista ou que os produtos têm consequências nefastas para a saúde humana ou, por fim, o consumidor encontre a morte na sua breve passagem pela vida.
Entre estes encontra-se o já mítico, por várias razões, All-Bran com o seu momento All-Bran que devia vir no dicionário como "momento da defecação". Se após esta comparação retirarmos a ambas as frases a palavra "momento" (tal como se faz numa equivalência matemática) ficamos com "All-Bran = ...". Está bem que vi num documentário que, durante as migrações originadas por grandes secas, os elefantes comiam escrementos dos vários elementos da manada para contornar a quase ausência de alimento e manter os intestinos a funcionar, mas fracamente, seria necessário copiar a Natureza em casos tão extremos?

Estes produtos não só "regularizam" a denominada "flora intestinal" como também têm os seus extras, para além das suas multi-vitaminadas composições, garantem ainda uma % ridícula de gordura como também oferecem uma quantidade massiva de fibras e (o tal composto que ninguém sabe o que é) "L.casei Imunitass"

Agora pergunto, com tão pouca gordura como é que o organismo lubrifica as variadas veias e artérias que constituem o sistema circulatório? Os glóbulos vermelhos carregados de abrasivo oxigénio irão desgastar, por acção do atrito, rapidamente as paredes de tão importantes canais... e com este frio é importante untar o sistema circulatório como forma de anti-congelante. Isto cá dentro é uma máquina muito complexa e convém ter este tipo de cuidados, tal como se tem num carro.

Muito mais ficou por dizer... mas quero ir para a cama e como muito texto é sinal que menos gente irá ler isto, vou ficar por aqui.

Estive para comentar o regresso dos detergentes com "sabão natural" no seu nome mas não é um campo que domine. Embora admita que acho extraordinariamente curiosa a evolução cíclica dos detergentes: do sabão natural passou-se para os outros porque o sabão não presta porque não tem "glutões que comem os detritos deixados pela comida", agora volta-se ao aparecem os detergentes baseados no "sabão natural" porque lavam tão bem como antigamente. Mas eles já se enganam a si próprios?
Também me senti tentado a falar nos champô multivitaminas, com tantos ingredientes, cujos termos técnicos não me recordo, e frescura que dá vontade de beber/comer aquilo (o mesmo me acontece ao ver certos anúncios de comida para cão ou gato. Confesso que me lambo todo e me cria um certo apetite. Acabo por vir da cozinha desconsulado por não encontrar nada que substitua ou satisfaça aquele desejo... nem mesmo paté de sardinha).
Há uns bons anos atrás, eu e o meu grande amigo "sôr Lampreia", idealizámos um champó Kinder -"agora com mais leite e menos cacau", tudo envolto num anúncio cheio de crianças loiras e felizes a brincar alegremente nos vastos pastos Austríacos. Nunca fomos com a ideia por diante.

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

O Renascer De Um Mito

Deve estar mesmo aí a rebentar para os meus lados, o primeiro prémio do Euromilhões, tenho a certeza! Não apenas por uma breve análise a um ditado popular (que relaciona a sorte ao jogo com a sorte ao amor), mas porque tenho um primo meu (fiz de propósito, repeti a ideia de posse, bastava dizer que "tenho um primo" ou "um primo meu") que trabalha lá e que me afiançou uns números que estavam assentes que iam sair. Isto tudo a troco de uma caixa de marisco de contrabando, daquelas que vêm escondidas em meias de senhora lá das africas profundas (lá mesmo do interior). Porquê do contrabando? Mesmo que tenham valores mais altos do que na loja e tenham em tudo uma pior qualidade, é hábito do português optar e preferir coisas ilegais apenas pela sua ilegalidade (basta ver no caso da Feira da Ladra, basta dizer que é roubado (mesmo que não seja) para que um molho de sabujos apareçam do nada para tentar comprar o produto - é roubado, é porque é bom e barato), a quantidade de lixo que não veio de portos francos (Canárias, Las Palmas, Trafaria, etc) para Portugal e que não foi vendido cá que nem mel como "contrabando de lá de fora"?. Bom... para ser preciso, ele trabalhar lá, não trabalha, mas tem um colega que trabalha (ora o meu primo não estuda, logo, em princípio, trabalha... se ele não trabalha lá no "sitio" do Euromilhões como é que tem um colega de trabalho que trabalha lá? A vida é uma complicação mesmo muito grande... principalmente depois desta chamada de atenção entre parêntesis e da repetição da palavra "trabalha") e que lhe disse. Ao invés da dita caixa de marisco de contrabando o "homem" queria outro tipo de favores, por isso mandei o "Tó Britos" (nome fictício) para se fazer cobrar. Foi uma informação cara porque puxaram (ao que parece não foi só um) demasiado pelo rapaz, espero que ao menos tenha valido a pena porque veio de lá meio abatido.

Bom... já estou a fugir ao tema.

Muita gente se tem perguntado a si própria o que faria com tamanho prémio. Eu dei asas à minha imaginação e cheguei a estas excentricidades luxuriosas:
Primeiro que mais nada ia passar um fim de semana à Costa da Caparica (intensão não tão desprovida de senso como possa transparecer) numa pensão de estrela e meia (estar nesta pensão ou numa no Brasil só mudam as coordenadas no GPS), em regime de meia pensão. Depois destas merecidas férias que serviriam para repousar e meter as ideias em ordem, aí sim estoiraria o pouco que sobrava para realizar os meus sonhos mais doidos (que expressão tão deprimente).

Neste ponto já estava entediado de tanto me divertir que, para finalizar este esbanjar de dinheiro, comprava uns faróis de nevoeiro para o Lancia e uma cassete para gravar música nova (com um bom Rock ligeiro, por exemplo) para ter no porta luvas. Assim se gasta um fortuna, em coisas boas e caras é verdade... mas o dinheiro some-se num instante. Se temos dinheiro para arder, tudo e todos à nossa volta são fósforos.


Acho que estou a ser um pouco atoleimado, o meu sonho desde pequeno sempre foi um. Penso que todas as minhas acções têm sido em função desse sonho. Para quê fugir a esta vontade, a esta utopia?

(Carregar no refresh do browser para ouvirem a música d'início)

Exacto, como todos já acertaram, estou a referir-me a comprar (embora nunca o possa ter realmente tal como outra qualquer figura mitológica) o KITT. Não confundir com o KARR (o protótipo programado para sobreviver a todo o custo, o carro inimigo de KITT) e muito menos com o "kit" que se adquire na farmácia. Já tinha esta obsessão antes mas, foi ao vê-lo exposto nas Amoreiras, que prometi a ambos (a mim e a ele) - um dia iremos ser companheiros (não confundir com a versão brazileira "kitshi amigão mi pégji pour traiz"). Já não faz muito sentido aparecer no infantário a conduzí-lo como fazia na altura, mas mesmo assim causava grande impacto e sensação no meio em que interajo. Para concretizar este exorbitância conto não só com o primeiro prémio do Euromilhões (um primeiro prémio dá para algumas coisas mas não da para tudo, como é óbvio) mas também com os quase 30 contos (muita contenção porfiada para alcançar esta delirante quantia) que tenho vindo a acumular no meu pecúlio desde 1986.


Ainda me lembro de tudo o que ele tinha de bom... desde o Voice Modulator para conseguir falar (com sarcasmo diga-se,talvez tenha aprendido qualquer coisa de lá), o fascinío do Turbo Boost... cada vez que ele levantava as 4 rodas do chão, ficava com um nó da garganta e paralizado a olhar para a televisão, o Sky Mode para andar em duas rodas (rodas da direita ou com as da esquerda), o Scanner (as luzes debaixo do capô (para os leigos) que mais tarde aparaceram, sob a forma de imitação barata (obra do tão aclamado na altura, "contrabando"), em muitos carros profanos, então em Toyotas Hiace vindos das obras, até quase que faziam fila) e por fim, entre muitas outras que não referenciei (sem contar com as inatas protecções anti tudo), a minha preferida - Super Pursuit Mode (SPM). Só para terem uma pequena ideia da extrema velocidade no SPM, o KITT andava tão depressa que até os pássaros pareciam balas (digo isto e não me contenho de arrepios com a comoção da lembrança). Aquando no SPM só conseguia travar graças ao Emergency Breaking System, que, para os olhos mais desprevenidos e mentes pagãs, mais não era que umas placas pintadas de vermelho que se levantam para dar a ideia de travagem perigosa. Ah... e o Auto Cruise, que permetia o KITT andar sózinho, também é importante. Tudo isto acompanhado com uns efeitos sonoros esplêndidos. (Recomendo a carregarem mais uma vez no refresh do browser)

O fenómeno era mais que uma série de culto, aquilo era um culto. Eu até tinha autocolantes Knight Rider, que vinham nuns bolos muito ruins, colados quer na caravana do meu avô no CCL da Costa da Caparica, quer no armário de casa de banho do meu outro avô.

Era o ídolatrar extremista de um ídolo, a máquina que quase ofuscou o brilhante Michael Knight. O senhor David Hasselhoff não só foi o Michael Knight no Knight Rider, como também foi o Mitch Buchannon no Baywatch.
Sem o KITT, voar mais alto, só um Deus.

Os anos 80 valem o seu peso em ouro. Passei à cadeira de Dinâmica do Tempo, mas não posso precisar, porque não me lembro, quanto pesa um segundo para fazer a conversão para década, e ainda falta o preço do ouro de lei, exclui-se, portanto, a hipótese de ouro de "contrabando".

"Knight Rider, a shadowy flight into the dangerous world of a man, who does not exist.
Michael Knight, a young loner on a crusade to champion the cause of the innocent, the helpless, the powerless. In a world of criminals who operate above the law."

segunda-feira, janeiro 24, 2005

Svpremvs Ravalhavm

Estou numa das mais perturbadoras épocas do ano e todo o meu tempo, paciência e força criativa são sorvados de forma fraudulenta a níveis exaustivos. No caso da última (a força criativa, para quem tem memória de pardal), gasta-se sem sequer ser utilizada. Estar a postar numa altura destas é como pisar uma mina anti-pessoal e esperar que nada aconteça. Também é nestas alturas que o nosso inconsciente impele o nosso consciente a estar mais predisposto a reflexões sobre o sentido da Vida e qual o significado da existência do Universo. Somos facilmente aliciados com o sonho de ganhar o Euromilhões e de, consequentemente, receber um generoso empurrão na vida. Sonhar é fácil... difícil é acordar para a realidade.


Infeliz coincidência que me deixou com uns certos remorsos. Desta vez, não era preciso levarem-me a sério, disse o que disse sobre o terramoto, mas nunca duvidei das capacidades do Criador. Eu a falar de um terramoto de proporções horrendas (para não repetir "dantestas") como significado para "terramoto", e ele a acontecer uma semana depois com quase todas as minhas descrições a serem usadas pelos media (tal como confirmado), vítimizando 280000 pessoas (28 navios com 100 contentores, cada um contendo 100 seres humanos dizimados violentamente, para terem uma melhor noção). Só mostra o quanto somos frágeis e minúsculos perante as forças da Natureza.

Como não tenho mais assunto dou por terminado o post.


Ah! Ia-me esquecendo... vou só escrever umas linhas sobre a passagem de ano.

Para ser sincero podia ter sido melhor. Só de pensar nos afortunados que puderam ficar trancados em casa para terem que ver a grande final daquela coisa que passa na TVIgreja (como foi apelida de início) fico com insônias: como é possível alguém divertir-se tanto?
Passar 8 horas em frente ao "tuvisor" a "gramar" algo que tem tanta cultura como um contentor de lixo orgânico em avançado estado de decomposição, será um nova forma de arte moderna, por mim incompreendida? Bom, não exageremos, tanta cultura também não, sempre se pode fazer um estudo químico ou biológico às várias reacções que se dão no contentor, tem algum interesse cientifico. O contentor, ao menos, ainda tem uma infíma utilidade, nem que seja para fazer apostas entre amigos, ver quem resiste durante mais tempo às já vencedoras náuseas.
Pronto, não me ocorre nenhuma justificação para se assistir àquilo.

Eu, ao menos, estive entretido na companhia de amigos (como a época era de festa, o Zé Cabrito também será apelidado de amigo. Estou a brincar... no entanto deixo no ar com o quê estarei a brincar: será que o considero sempre amigo ou nem na época em questão isso acontece?), para além de frio, passei um bom bocado ao ver as suas vidas a desmoronarem-se enquanto eu ganhava fortunas, isto no Monopoly, claro.

O mais engraçado no Monopoly não foi bem ter ganho, a piada foi ter feito todos perderem por minha causa. Até gostei de jogar, senti-me poderoso, foi saboroso sentir que tinha tudo acabado a jogar contra mim e mesmo assim dominei o jogo. Uns dizem que foi muita sorte de início, o Tiago prefere dizer que foi apenas uma grande visão sobre o futuro, análise global do tabuleiro de jogo aliada à enorme idoneidade de gestão de imóveis e de uma enorme capacidade de relacionamento empresarial. E ainda consegui provar a minha teoria: dinheiro gera dinheiro. Foi pena dois terem preferido falir a darem-me o pouco que ainda tinham... gente sem coração nem sentimentos.

Para além deste peculiar episódio, tive que me "contentar" em fazer uma tumultuosa algazarra, com os meus amigos, no centro do Cartaxo (um (que acorda com os boxers diferentes daqueles com que se deita e que se perfuma antes de ir dormir sozinho) no entanto era arrastado, pelo meio da relva, por uma cadela assustada com o rebentar dos foguetes, justificou porque era dominado com um simples "era para não a magoar, deixei-a ir para onde queria").

Contámos as 12 badaladas num cenário provinciano e com a simplicidade da década de 60-70. Junto à Camara Municipal do Cartaxo, uma Peugeot 505 GRD (SA) com as portas abertas, "tufonia" sintonizando um posto regional que transmitia música popular (aka "pimba"), com locução em directo da nossa grande Tonixa, que nos fez dançar de forma espontânea e natural. Pronto, confesso... estava mesmo muito frio (a ponto de se acordar a meio da noite por se ter as orelhas e o nariz gelados). Houve ainda o vinho espumante ("champagne") do mais barato e ordinário mas, mesmo com estes atributos, era digno de uma rolha de cortiça sintética ao invés da de plástico. Foi comprado num supermercado de produto barato e bebido em copos descartáveis mais ruins que os incluídos no almoço da cantina.
Sem esquecer um saco com 500 gramas de passas (para os naturais desta região, uva que não vai para vinho (ainda que carrasqueiro), é uva perdida, é um sacrilégio que se comete. Estávamos habilitados a uma pena que podia ir das 25 chicotadas à morte na fogueira em plena praça de touros), que mais tarde foram encontradas espalhadas pelo chão da SA, passas essas que também serviram para dar as boas vindas ao novo ano.


Depois da dita "passagem de ano", e como somos gente pobre e agarrada ao dinheiro (eu pobre não sou, sou dono de uma série de ruas todas com hotéis como já o tinha referenciado. Apenas me chateou a mesquinhez de alguns em teimarem que tudo não tinha passado de um jogo, tretas... está tudo legal, tenho os cartões todos em ordem, para provar o que é meu e não devo nada a ninguém), "tivemos" que nos colar a uma festa da comunidade religiosa (?) "Taí,Zé" ou "Tai-o-Zé" e comer o que havia, ainda que contrariados. Como o estômago é pequeno, tivemos que levar dois pratos com bolo de chocolate para o carro, a SA, visto que em cima da mesa poderiam azedar e fazer mal alguém. Com tanta gente não pudemos arriscar com este atentado à saúde pública.
Enquanto estávamos nos "treinos" (leia-se "de volta de uma tarte gelada") não pudemos deixar de reparar numa massiva orgia "bate couro", capaz de deixar Nero envergonhado, tal era o festim selvagem.

Confesso que já vi filmes de "karaté alentejano" (nome técnico) com um guião bastante mais suave e, em comparação com o que assisti, bastante mais provável (apesar de um não passar de ficção).
Como é possível, gente da igreja, que dorme e come em casa de amáveis crentes, gente que se faz passar por mensageira da palavra e do bom nome de Deus fazer uma coisa destas?

Vimo-nos obrigados a abandonar o recinto quando começaram a querer formar grupos por nacionalidades, com fim a organizar a partida, lá para a terra deles, no dia seguinte. Foi agradável, apesar de termos sido uns chupistas, passámos um bom bocado no meio de tanto jovem um tanto ou quanto afectado por uma concentração hormonal algo excessiva.

Já agora e só para deixar clara a questão do Trivial: ora acontece que não perdi... apenas não me apeteceu ganhar. É do senso comum saber quem é que arbitou a final da taça em 1957, ou que raio é um "bufometro" e por quem foi inventado, já para não falar no nome do primeiro navegador croata a chegar à Polinésia numa embarcação de 2 mastros. A realidade é que estava a ficar com as mãos frias a ponto de ter as unhas roxas e os dedos pálidos. Pensei: só me safo desta se conseguir chegar a esse oasis que é lavar a loica. E assim o fiz, enquanto uns sofriam por estarem quietos sem nada para fazer ou por estarem a implicar uns com os outros, eu lá estava entretido a lavar a loiça alegremente e de livre vontade, fazendo inveja a muita gente, enquanto recitava, em jeito de cantarolar, uns versos de António Variações.

Por último, descobri um método, ainda em estudo e com uso exclusivo a homens, para utilizar a régua como termómetro. Os passos, em linhas gerais, são as seguintes: encostar uma régua à base do tronco fálico e, aplicando a fórmula (ainda em aperfeiçoamento):

T = L0 + 4 ln (x/20)

T = temperatura em [ºC]
L0 = medida em [cm] do membro a 20ºC e a 1 atm
x = resultado da medida ao membro em [cm]

será possível descobrir a temperatura do meio com grande precisão. Em confronto com alguns resultados obtidos em cobaias, denotou-se que certas temperaturas podem ter uma acção castradora para a masculinidade.


Dou assim por terminado o primeiro post do ano (que coincide com outra data qualquer sem importância de maior), após ter sido editado para metade do tamanho. Apesar de ninguém mandar em mim (nem eu próprio mando, quanto mais os outros), achei por bem reduzir o tamanho para que pudesse ser lido de uma só vez.

terça-feira, dezembro 14, 2004

Mastodonte Cardioplegia

Recebi um pequeno aviso que seria melhor actualizar o blog... este foi-me enviado pelos Deuses e de ínicio confundido com o terpidar normal de o elevador, visto que estava na cabine do mesmo e estava a chegar ao andar de destino. Sim, falo do sismo, se assim se pode chamar. Eu hoje como dormi 12.30 horas (deitei-me era meia noite e meti o despertador para as 9... lembro-me de ter carregado nums botões para "dormir mais um quarto de hora" e de ter acordado às 12.38) andei todo acanhado como se tivesse vestido um fato pressurizado a 8 G's (até estar quieto cansava) e portanto estava inerte a qualquer interacção com o mundo exterior. Tudo estava difuso e muito distante.

O que achei curioso foi, quando voltei à rua, observar um ligeiro pânico nas ruas: "vamos morrer!!!", "Satanás está abrir rocha e vem lá do profundo Inferno!!!" não... estou a exagerar! Foi a atitude das pessoas, tirando um grupo de "gentinha" (os que desceram as escadas aos gritos e quase a chorar porque vinha lá o "armageddon") que tendia a não sair do pátio da alameda e não tirava olho do cimo dos prédios para ver se ainda abanavam ou se caíam matando todos os teimosos que lá permaneceram apesar dos seus avisos e recomendações ("é bem feita! Eu bem os avisei que isto ia tudo abaixo... eu sei muito bem como é que estas coisas funcionam! Sim, porque vivi durante muito tempo em França e eles lá é que têm muitas coisas destas. Isto de tremores de terra é coisa de país evoluído, nada que aconteça nesta pasmaceira." Já agora... a frase antes do parêntesis é do tipo "apneia"), o resto do povo tinha o seu tema de conversa todo centrado no abalo tectónico: "a minha casa foi abanada com uma força... aquilo era assim... «zum-zum» (gestos violentos como quem sacode abelhas dos braços)", "o movél da sala arredou-se um metro d'onde estava", "a minha televisão, que é dessas grandes e modernas, ia sendo cuspida contra a parede", "foi tão violento que o Algarve ia sendo engolido pelo mar e o Porto desmoronando...". Outros ainda falavam do sismo de 1755 e outros sobre o que viram num canal temático e ainda havia quem mandasse vir com que não sentiu uma "coisa daquelas". Já para não falar dos que teimavam em dizer que tinha sido o metro a passar mesmo depois de ter sido anúnciado no telejornal que tinha sido um sismo de 5,4 na escala de Ritcher.

Se ao invés de aviso, tivesse sido a ira dos Deuses que me protegem, aí sim teria sido um sismo. Um abalo de dimensões dantescas enviado pela cólera dos criadores do Universo, um grito da Terra que traria o caos ilimitado e a destruição incomensurável. Aí sim, podia-se dizer que se tinha sentido uma ligeira trepidação, mas nada que nos preocupe ao ponto de não pararmos de falar sobre o assunto.


Como foi prometido ao magnânimo e imponente Zé «Grande Mestre Feiticeiro», e também como arquivo histórico, vou relatar um pouco do Estoril Historic Festival 2004 onde vi automóveis que transformaram, naqueles dias, a minha realidade num estado de vigília inconsciente. Ir para além do breve relato iria condicionar a parca hipótese de raparigas lerem isto... que safou da!

O que importa sim, é que foi um fim de semana verdadeiramente emocionante (adorei mesmo e não me meti para ali a dizer "ai que bom, ai que agradável" só para fazer jeito), assisti a várias corridas de veículos realmente históricos e belos, os autênticos automóveis (estava lá um carocha e um Lancia igual ao meu... antes de aparecerem piadas nas vossas cabeças amofinadas pela Besta). Lá vi belas peças de arte e de mecânica como os cromos raros da Fórmula 1 (Lotus que tinha sido pilotado pelo Nigel Mansel, um McLaren pilotado pelo John Watson, um Tyrrel pelo Jackie Stewart, um Ferrari do Gilles Villeneuve, um Copersucar do Emerson Fittipaldi, de entre os que reconheço como pilotos de F1 (também estava lá um RAM de 1983 que foi pilotado pelo Jean-Louis Schlesser, mas esse conheço mais do Paris-Dakar)), Jaguar E-Type a correr e em exposição (era mesmo gracioso e elegante), um Mercedes SL300 com 50 anos em exposição (este é certamente dos carros mais belos alguma vez construídos... foram produzidos 1400 e custavam o preço de uma moradia), carradas de Minis Cooper S (os verdadeiros, com dois depósitos de gasolina e com dois carburadores especiais) quer a correr quer em exposição, Mustangs que muita gargalhada me proporcionaram quando uns 7 ou 8 foram ultrapassados no fim da recta da meta por um Mini... e dizer isto aos meus colegas que desde que viram o «dá fést ain dá furriós» são peritos em automoveis e o Mustang não há quem o "pape" (inventaram desculpas ridículas para o facto do Mini os ter ultrapassado: "o piloto do Mustang era um granda nabo..." -eram 8 Mustangs e não 1, "o Mini estava todo mexido" -os Mini só podiam levar o mesmo tipo de preparação que os Mustang, "tu viste-me o «Tu Fést Tu Furriós»?" (disseram-me isto com ar triunfante e depois começaram com umas hitórias de "nitro" escondido e recusei continuar a compartilhar o que vivi)).

Aliás... o que mais me espantou foi ao contar isto a alguns desses colegas que se dizem homens (há uma forte suspeita que a válvula unidireccional do esfíncter ou esteja estragada ou tenha sido alterada à marretada de corneta para suportar uma conexão bidereccional), estes (que é só um mas assim posso desviar a conversa se o confrontar pessoalmente) começarem a falar do Saxo Cup como se fosse «a grande máquina»... para quem viu Formula 1 com motores cujas rotações ao relanti andam entre as 4.000 e as 5.500 rpm e cujo "redline" nunca mais aparece... um Saxo? Os limites máximos de um são os limites mínimos do outro.

É que a Formula 1 na televisão é uma coisa, agora ao vivo... eu, que tinha acesso à pitlane, consegui ficar no resguardo mesmo no meio da recta da meta (onde estão uns marmanjos com as placas com o tempo dos pilotos). Senti aquelas magnificiências a deslizar tão perto de mim num estrondo de sensações. Vê-los era quase impossível para o olho humano. Até fiquei arrepiado e transtornado tão mítica era a sua passagem... o ruído ensurdecedor que me trespassava quase me arrancava a alma com a velocidade (já para não falar dos ouvidos que ficaram acampaínhados).

A delicada elegância com que estes veículos abordavam as curvas parecia a de uma bailarina francesa adolescente a dançar ao som do Lago dos Cisnes num disco de vinil de 33rpm tocado a 78rpm (45rpm não eram suficientes para demonstrar a velocidade)

Para além da Formula 1 e das várias corridas de clássicos (Ferrari 250 GTO e 275 GTB, Aston Martin Project, MGB, Corvette de '62, Lotus Elan e Elite, Shelby 350 GT, Marcos GT, TVR Griffith, Porsche 911, Jaguar E, De Tomaso Pantera (ficou famoso porque o Elvis tinha um, é italiano com motor americano e cospe fogo pelos escapes cada vez que há uma redução nas rotações), BMW 2002 Alpina, Ford Escort MKi, AC Cobra (e os seus ruídosos motores), e um Daimler Benz 300 SEL com motor de 6 litros... entre outros) e das motas históricas também houve aquele que, certamente, foi um dos pontos altos deste evento. Foi, sem dúvida, o “Slalom Michelin Rali de Portugal”, acontecimento que recriou a prova de fecho daquele que foi o nosso grande rali do Campeonato do Mundo, outrora denominado como “O Melhor Rali do Mundo”.

Tinham os mini-Minis (Minis cortados, sem os lugares de trás) na sua classe própria porque "limpavam" aquilo tudo se estivessem com os outros. As primeiras vezes eram bonitos de se verem... depois irritavam por fazerem aquilo tudo direitinho, à primeira e sem espalhafato. O que a malta quer é algazarra: muito barulho, muita borracha queimada, saidas e enganos no circuito, que eles derrubem muitos pinos e obstáculos, que façam tangentes aos muros sem intenção, isso é que nos faz levantar das bancadas e bater palmas, nos faz sentir emoção e adrenalina no corpo. Tudo isto junto só foi possível com os Ford Escort, Lotus Cortina, Lotus Talbot, Datsun 1200 e o Alfa Romeo SZ (o único que vi ao vivo até hoje... fiquei perturbado ao recordar quem adorava o carro e já não o poderá ver) do Rodrigo Gallego (que para quem não sabe, é português e é o actual campeão de TGP (F1 clássicos, "Thoroughbred Grand Prix")).

Muito engraçado foi quando choveu (teria sido muito mais engraçado se eu não tivesse ficado à chuva sem chapéu...), que proporcionou um grande bailado de Datsuns 1200 (tracção traseira) nos "ésses" do Autódromo do Estoril. Mas o que me fez rir mais, ou pelo menos deu vontade de bater em alguém, foi ouvir, quando a chuva ainda se aproximava lá ao fundo, um "cavalheiro" ao meu lado dizer: "oh pah ela... até deita fumo, depois não é de admirar que hajam tantos incêndios!"

Eu e o meu amigo Vencilis, só nos imaginávamos: "E agora vinham ter com a gente e diziam que precisavam de dois pilotos para uma prova qualquer... e agora era mesmo verdade", "e agora por sermos simpáticos e muito bonitos uma velha rica dáva-nos um carro destes à escolha". No fim já nos contentávamos se alguém nos deixasse dar uma voltita numa mota miniatura que estava lá à venda e que só os meninos ricos tinham acesso.


Tanta excitação e comoção vivida, originou-me um aperto na bexiga. Mas assim que ouvi a ignição de um F1 que se encontrava a um metro de mim(e não mais de 1.05 metros), tal constrangimento acabou por desaparecer naturalmente devido à adrenalina bombeada em altas doses directamente no sistema nervoso a um rítmo que apenas me permitia inspirar emitindo um pequeno som gutural, expirar era algo fora das minhas limitadas capacidades. Olhos de tal forma abertos que só não me caíram porque bateram nos meus novos óculos "Jorge Armando". Estranho foi o "quentinho agradável" que senti nas pernas... ainda está por explicar.

Bom, talvez não seja assim tão difícil de explicar... momentos antes tinha ido "órinar" para me vangloriar que já tinha expelido líquidos pela uretra na retrete do Autódromo Fernanda Pires da Silva (gosto muito desta palavra... "retrete", deixa o lateiro que há em mim falar). O quentinho era originário dos escapes do bólide que, de pulmões cheios, sopravam monóxido e dióxido de carbono misturados com muita gasolina mal queimada.

Muitos, ao lerem estas últimas linhas, pensaram certamente que se tratava de um regresso meu à meninice. Enganam-se... embora com muita pena minha.


Esta paixão por automóveis remonta a esses tempos, aos tempo do infantário. Onde, dos meus brinquedos preferidos, constavam pneus usados amontoados no pátio. Os pneus maiores eram os mais apreciados, porque ganhavam mais balanço e podiam ser decisivos numa corrida, nem que fosse no mau sentido... às vezes não tínhamos "unhas" para o pneu, as pernas fraquejavam e começavam a ficar para trás, e ao tentar controlar o acelerado aro de borracha, dávamos por nós num estonteante "drift" de barriga, cuja fricção no chão nos aquecia ao ponto de deixar ferida, calcanhares a rentar a nuca, e claro, as mãos, que cuspiam a pouca gravilha que não ficava agarrada à carne, e os braços, de cotovelos rasgados nas mangas, permaneciam ambos esticados para a frente num último desespero para agarrar o potente veículo e a honra na corrida. Tempos tristes vivem as crianças de hoje. Só podem brincar, se assim se pode chamar, com produtos aprovados pela UE... quem não sente saudades da zona da oficina no infantário? Onde bastava a educadora desviar o olhar e já estava um a guinchar de extrema e descomedida agonia depois de ter mutilado um ou mais dos seus pequeníssimos dedos com o martelo... à "pala" desta recordação soltei uma gargalhada abafada num local dedicado ao estudo onde o culto pelo silêncio é exigído (já não basta estar no curso em que estou e a fama que ele acarreta, que não contente com isso, devo andar sempre a "queimar-me" sem ter consciência dos meus actos).

Tinhamos livre acesso a substâncias psicotrópicas (quem é a pessoa, que se diz pessoa, que nunca comeu ou plasticina ou sabão azul, lambeu sticks de cola UHU ou encheu a boca de tinta?) que nos permitiam falar com os espíritos da casa e que também nos proporcionavam umas boas corridas, que eram mais levitações a grandes velocidades pela sala de "aula" que outra coisa. A sala... com as paredes repletas de desenhos que nos dias de hoje nos parecem dois traços semi-rectos e um meio curvo mas na altura eram suficientes para representar, com exactidão queiroziana, a família a visitar o Mosterio dos Jerónimos, num dia de sol forte em que se pediram, três cones com duas bolas de gelado cada (e seus respectivos sabores). O pedido, como facilmente se discernia com uma breve análise ao desenho, tinha sido feito numa carrinha de gelados conduzida por um homem de boné vermelho com uma estampagem barata de um urso polar a subir a um iceberg. Era ainda possível aos mais perspicazes, notar que o mais pequeno elemento da família tinha a camisola suja de gelado de frutos silvestres.


Eram tempos tão belos esses da infância, onde tudo era tão simples... não havia problema que aguentasse mais de 18 segundos na nossa cabeça e quanto a raparigas eram só para levantar as saias (apesar de não percebermos para que o estávamos a fazer... deve ter sido algum velho que nos ensinou a troco de rubeçados, para puder estar a ver o festim "lá do fundo"), nada destas complexidades e enleios que nos acabrunham nos tempos que correm (não tem o significado que pensam ao tirar pelo ínicio da fonia da palavra). E eu, que era uma paz de moço, um cachopo muito atinadinho, que era o exemplo dado por muitas senhoras de idade para os netos dela.

Quando os outros meninos me chateavam ou me contrariavam, com um ar muito tranquilo enquanto os olhava na raiz dos olhos, e como se estivesse a fazer o melhor para os dois (assim a vítima ganha-nos uma certa confiança, fica à vontade e mais serena de espírito, é uma sensação idêntica à sentida pela gazela quando é hipnoticamente fitada pelo leão antes de este atacar) enfiava-lhes o dedo indicador pela cavidade ocular acima. Ficava logo o assunto tratado sem preocupações e sem burocracias de maior.

Era eu também quem tinha os desenhos mais bonitos da sala... quem, por algum instante, os tinha melhores que os meus, os seus apareciam estranhamente riscados por obra do acaso. Eu, com olhos reluzentes de bambi atropelado, prontificava-me a ajudar na procura do culpado. Se tinham o azar (sim, o azar era deles e não meu) de o meu "boneco" aparecer riscado, era sinónimo que muitos meninos iriam ter com a educadora a berrar em baba e ranho (que já escorria por aquele "bibe" aos quadradinhos azuis ou cor-de-rosa e com um botão de cada feitio), com ambas as mãos das pestanas, ao passo que eu estava sentado a brincar com as plasticinas muito sossegadinho, com ar de que não é nada comigo na sua variante "ar de quando cá cheguei já ele estava assim nessa fantochada".

Tempos belos esses em que todos nós desconhecíamos o racismo e a descriminação. Era a época da inocência, todas as nossas acções eram puras, simples e livres de preconceitos.

Lembro com saudade o trabalho de área-escola do 5º ano, em que o projecto consistia numa pequena manifestação contra o racismo. Desfilámos pelas ruas e avenidas de Alvalade ornamentados de vestimentas escuras, fios com bolotas e nozes, exibindo com aparato uma máscara castanho-nharro elaborada por nós (lembro-me, como se fosse hoje, que o que mais me custou fazer na altura, foi a carapinha em relevo...). Foi com esta mesma inocência que gozámos com o Hélder, com o Ilídio e com o Reginaldo por estes já estarem mascarados... tiveram todos 5 por estarem melhor caracterizados que os demais (claro... aqui já não há racismo, fomos descriminados em relação a eles, mas aqui já o SOS Racismo não intervém, tal como me desliga o telefone na cara quando lhes ligo a dizer que fui assaltado por 7 turras em plena camioneta na Costa da Caparica).
É que até a jogar ao "guélas" falavamos sem malícia: "Cãe hiéha jugare?" Ao que alguém protamente respondia -" éu mas carrádo" ou "héstu hóquei hemádu"... ah meninice que não voltas.



Lembrei-me de uma questão que me intrigava há uns tempos atrás e a qual me recordei à pouco tempo, por estar a reviver tempos passados: que fenómeno exotérico ocorreu no início do video amador (no tempo do 8 mm e das máquinas de projectar Eumig (que toda a gente tinha uma para projectar um filme mudo de desenhos animados, poucos eram os filmes e viam-se sempre como se fosse a primeira vez), este fenómeno, que vou introduzir já mais à frente, era muito raro porque as máquinas de filmar eram raras como causa do seu elevado preço e da revelação da fita não ser barata. Não havia portanto a vulgaridade de fazer "filmes amadores". O preço do meio de suporte da informação e da sua revelação originavam uma grande e séria ponderação sobre o "consumo" de fita. 15 minutos davam para testemunho de umas férias de 2 semanas num local nunca antes visitado e mesmo assim sobravam sempre 3 minutos que eram guardados para algum acontecimento "especial". Era impensável que um fim de semana na "terra" desse direito a 72 horas de "reportagem" onde até os "colhões" (passo a expressão) do burro era motivo de filmagem por aparentarem um maior volume ao da semana anterior. Filmar cerimónias "religiosas" de parentes afastados? Era o casamento ou baptizado do filho e mesmo assim eram 2 minutos no máximo para não cansar muito a máquina. Filmava-se os primeiros passos do filho e não a saga "Quando o Ruben era Pequeno" ("primeiras" quedas como tentativas de passos (Imaginem-se a ver um Best of João V. Pinto num DVD de duas horas), o puto a dormir num "curto" filme de 57 minutos (aquilo ou uma foto só diferenciava se a foto estivesse tremida), as primeiras laradas no penico...)) que obrigava as pessoas a andar dobradas, em frente à câmara de vídeo, a olhar para a objectiva que nem um gato a olhar fascinado para os farois acessos de um carro em movimento, momentos antes de uma fatídica projecção de 270 metros ou de uma prensagem, irrevogável pelo destino, num radiador anónimo?


Ou era um fenómeno paranormal provocado pela radioactividade do led vermelho da câmara de vídeo, que avisava que estava escrito "rec" no visor, em associação com a figura de um parolo barrigudo temporariamente vesgo de um olho, semi-careca (culpa da meia-idade), fazendo uma cara de agudo sofrimento para conter o ar no tórax e não tremer (tinha efeito contrário curiosamente... tal eram as "guinadas" oscilatórias que vitimizavam a gravação. Enumeras foram as visitas que perguntavam -"Foi filmado dentro do carro?" ou "Estava assim tanto frio ou estavas a assoar o obué (a mesma actividade de nome "dar corda ao palhaço" mas mais frenética e descontrolada)?") ostentando tal misterioso aparelho?



Apenas após, ou após apenas, um ano tive direito a um pequeno incremento no número de comentários no blog... "sim sanhora!". Já passei o milhar de visitas mas muitas delas continuam a ser devidas ao resultado da combinação "Lenka preço certo em euros" em alguns motores de busca.

É preciso ganhar-se algum estatuto e, principalmente, ofender muita gente para se conseguir um comentário. Confesso que alguns dos comentadores (quase todos para precisar) foram forçados a comentar, uns sob ordem directa sobre coacção de represálias e outros por verem os seus nomes muitas vezes mencionados, mas também há quem o faça de livre vontade.

Quem deu a ajuda para este blog ser criado, prefere o sigilo do email para comentar, assim garante que as sentenças e identidade não sejam profanadas.

Tenho uns leitores fiéis que parecem apreciar o meu produto e nem é preciso avisá-los que fiz actualizações no blog porque vêem cá de livre vontade.

Depois tenho os leitores mais recentes... com esses é mais difícil de lidar porque esta juventude tem um humor muito especial... riem-se com coisas muito próprias lá deles. Espero que encontrem aqui motivos para se rirem, nem que seja de mim (neste caso é bom que andem com cabeças de coelho ao peito para evitar o mau olhado (Se leram os posts todos vão ver que esta já tem algum tempo)).

Há ainda aqueles (acabei agora mesmo de dizer um palavrão, que mais não é que o nome de um pássaro fenício ("Fovdvs Sasse"), após ter tentado partir uma bolacha dentro da boca para não me encher de migalhas e a bolacha se ter partido com um corte perpendicular ao que eu intencionava, pulverizando-me de estilhaços.) que assim que entram aqui nas "instalações" desta facécias (o dicionário tem cada palavra... eu com um vocabulário elementar de dois ou três grunhidos monossilábicos (que basicamente significam "comida", "água" e "canal do aparelho genital dos mamíferos-fêmeas que se situa entre a vulva e o útero" (Esta frase anterior tem certamente os conteúdos mais ordinários que escrevi até hoje...)) combinados, consigo arranjar sinónimos para quase tudo) dizem: "Ena, é tão grande (não escrevi isto com bons sentidos)... hoje não tenho tempo, mas amanhã já leio, tah?", "Escreves bués..." e depois remetem-se ao silêncio. Estes, que são a grande maioria, já sei que nunca vão ler isto.
Escrevi este post, certamente o maior que escrevi desde sempre (embora quantidade não signifique qualidade), a pensar nestes últimos... ou seja, acabei de me condenar a que esse grupo preponderante jamais passe das primeiras linhas. Mas não fiz mais que o que um garoto da Musgueira faria a alguém com quem não simpatiza, esticar-lhes o "mega" enquanto estam a virar as costas.


Há ainda aquela rede de malha fina para capturar uma melhor qualidade de leitores do meu blog. No ínicio do desenvolvimento deste post, pus um assunto menos atractivo aos olhos de uns, e só depois algo de "interesse" geral (como se o que escrevo interessasse a alguém). Assim garanto que quem leu o resto fê-lo com intenção e desígnio e não o fez de castigo. Vamos lá ver então, quantos chegaram até aqui, e quantos é que desses, estão dispostos a comentar de livre vontade. É que um blog que não seja lido, não tem razão de o ser...

terça-feira, outubro 19, 2004

Uma Volta no Carrocel Solar

É verdade... já lá vai um ano desde que me meti neste poço de descarga mental. É mais que certo ("mais que certo"... sendo o "certo" uma condição lógica - "0" errado, "1" - certo/verdade - como é possível ir além de uma coisa que é absoluta? Já arranjei motivo para contestação.... adiante) que jamais alguém se lembraria, ou repararia, que hoje faz um ano que meti aqui o primeiro post, mas cá estou eu com mais um.

Isto agora de ter um blog é uma coisa demasiado banal... toda a gente tem um! Na grande maioria dos casos metem um ou dois posts de nome "teste" e depois a coisa morre (amigo CÆSAR Metalleirvs, não é contigo). Outros, por seu turno, pensam que têm o melhor blog do mundo e passam os dias a contemplá-lo sempre com a esperança que têm um novo comentário (quem por esta altura já me incluiu no segundo grupo que se desengane... eu tenho consciência que isto não é lá grande obra, só escrevo palermices. Estou-me a larar para quem não gostar ou se sentir incomodado ou mesmo para quem isto não surte qualquer efeito). Existe ainda um crecente grupo que posta emails "cómicos"... daqueles que já recebemos em 2002, juntamente com 5 chain-letters, mas que é sempre agradável (+w naa +e i xaeakgi|, ups... estava agora a limpar o teclado e isto apareceu aqui. Também já me aconteceu tentar afastar um insecto do monitor com o cursor do rato. Isto de morar em frente a um jardim tens os seus pros e contras... há uns dias atrás tinha uma pequena osga na parede do quarto. Foi realmente fabuloso! Mas como não vivo sozinho tive que pedir desculpa ao recém-chegado hospede e mandá-lo suavemente pela janela) reler outra vez.

Não sei ao certo com que objectivo continuo a escrever aqui... para mostrar uma presumível criatividade minha não o é certamente visto que não preciso de provar nada a ninguém. Para cativar a simpatia de raparigas muito menos será, escrevo tanto de uma vez que cada post acaba por ganhar contornos a roçar «rés vés» Campo Santana os limiar do aborrecido ao invés do aprazível. Talvez seja para agradar a alguns amigos ou, mais simplesmente, para queimar tempo (o que é muito improvável, tenho mais coisas para o estoirar).

O que poderei eu escrever aqui para post? O regresso às aulas? Já o fiz mais ou menos no último post e apenas iria acrescentar que estou a aprimorar as técnicas de bocejar apenas com a narina contrária à posição do professor e a de me espreguiçar somente com os dedos dos pés.

Resta-me meter um pequeno excerto das minhas férias e do Estoril Historic Festival 2004 ao qual assisti ao vivo (eternamente grato Zé «Grande Mestre Feiticeiro» por tal dádiva, que o Espírito do Cavalo continue a correr livre nas planicies por ti. Não confundir com o Jezué Toinhó que, apesar de volta não volta ter as suas quebras (como qualquer um de nós as tem), não deixa de ser bom rapaz).
Por escassez de tempo irei optar apenas por falar das férias. Mas irei desenvolver o EHF em breve.


Havendo quem prefira ficar enclasurado numa cave gélida a repirar humidade e mofo, ambos cheios de fungos e de outras maleitas que se alojam nos locais mais recônditos da natureza humana (não percebi onde quero chegar...), com uma fugaz e eternitente luz artifícial, agarrado a uma caixa a quem chamam de "ordinatór", durante 15 horas seguidas, eu prefiro continuar em busca de mais um agradável passeio.
Este Verão fui três vezes a Portimão (já me estou a tornar fã). Agradeço aos amigos que me convidaram a lá ir («Sôr Lampreia», «Vencislis» e aos meus progenitores) e digo que adorei o acolhimento, sem discriminar nenhuma das estadias.

Recordo com especial carinho as idas de "cámiunete"... todos a passarem meticulosamente à frente para que os outros não lhes passarem à frente ("já os meus pais me encinaram, iducação acima de tudo... sempre mincinaram (esta gentinha dá muitos erros de ortografia e repetem-se muito) a respétar os óutres mas eista arraia jovem sãe uns malcriadões (...) e não se lhes pode facilitar, mas qué isto?"). O motorista a cortar bilhetes parecia que estava a dar milhos a pombos. Apesar de ter lá chegado mais cedo que muitos dos que entraram primeiro, fui o último a entrar. Mesmo asism era olhado como se tivesse sido o primeiro a entrar após ter passado à frente de todos.

Quando finalmente entrei (10:27) o "velho" que estava no meu lugar (teorema fundamental dos lugares de camionete: há sempre alguém no nosso lugar que teima em que aquele é o lugar dele porque entrou primeiro, não há lugares marcados ou porque eu sou um "malcriadão") já lhe estava a dar num "granda" prego no pão. Quando a camionete finalmente começou a andar a "velha" atrás de mim começou a rezar o terço com uma estridente rumorejante voz ("qué preciso éca gente chegue lá bem!"). Já no fim da Ponte 25 de Abril, estava um veículo de uma senhora com o "capôt", porta-bagagens, porta-luvas e portas todas abertas para apanhar ar e arrefecer (se está avariado tem que se abrir tudo o que der para abrir para dar a imagem "hollywoodesca" de avariado) a ser ajudada por um mecânico de bigode amarelado pelo cigarro sempre acesso no canto da boca, vestido com um fato de treino azul-escuro, com uma risca branca e um fechos daqueles que fazem uma marreca à frente, todo ele com ar de "isto é reparação para uns 600/700 óires" (é verdade... a falta de gasolina pode provocar danos irreversíveis a nível dos amortecedores e na direcção). Já para não falar no auxiliar do mecânico, barrigudo, calças de ganga lassas e em baixo, uma camisola da selecção com um colete amarelo flurescente com bandas reflectoras por cima, que passou o tempo todo a olhar, com ar de bloqueado mental, para os carros a passar.

Quando chegámos a Almada (10:58) veio mais uma remessa de gente. Uma das senhoras cumprimentou, toda radiante, os passageiros - "bom dia a toda a gente". A velhota que estava atrás de mim levantou-se a correr com uma banana na mão a pensar que era a primeira ida ao W.C.. Mal partímos, deu-se o caso do jogo.... 2 jovens, que estavam nos lugares da frente, levaram o caminho todo a levar nas orelhas por terem, passo a expressão, "cagado os assentos com iogurte". "Ainda nem há 10 minutos saímos e já estão a comer...em cada viagem que faço não posso mandar lavar o autocarro. Os senhores não gostam de encontrar o autocarro sujo quando entrão pois não?". Curioso foi a "velha da banana" a refilar lá para com ela - "jovens malcriadões... não fazem isto em casa deles" - enquando palitava os dentes com o mindinho (boca toda aberta, braço torcido e palma da mão para cima) e fazia barulhos de sucção ao contrair as bochechas, retirando enormes porções de plátano os quais eram colocados no forro do banco da frente, onde já anteriormente tinham sido colocados os "fios da casca" da banana.

Em Aljustrel (12:21), o homem do prego foi visto ostentando uma fenomenal geleira azul. Como é que esta malta consegue ir de camioneta até França se para uma viagem que nem percorrer meio Portugal, comem que nem ursos pardos em pré-hibernação?

Chegádos quase ao fim do trajecto, e em estrada mais sinuosa, a velha do banco de trás mais uma vez faz questão de me lixar o juízo. Agarrou-se ao meu banco, exalando um putrefacto bafo seco, de quem passou anos a inalar uma mistura de naftalina/cânfora com um forte hálito de quem comeu uma banana madurinha.
Por esta altura acabou-se me o guardanado de pastelaria onde estava a fazer o diário da viagem...

Relembro-me de outra peripécia em camionetas noutra ida para Portimão, desta vez na segunda ida.
Mal começou a viagem deu-me uma vontade de mijar daquelas que aparecem quando estamos a chegar a casa (efeito psicológico instantâneo que ocorre assim que estamos perto, mas não o suficiente, do mijatório) - "como é isto possível se ainda agora mijei?".
Ainda pensei pedir ao motorista mas como tinha cabeça (não apenas a cara portanto) de casmurro desisti da ideia. Foi então, num magnífico acesso da mais pura das inteligências e fruto de um raciocínio sagaz, que conjecturei - "ora ter vontade de mijar (repare-se na contínua utilização da palavra "mijar" para entoar o aflitivo aperto que sentia na bexiga) é contrário a ter sede... tal como seca é oposto de dilúvio.
Comi um pacote de bolachas Maria com mais de 8 meses de armário (secas que nem terra que foi à estufa) é o equivalente a induzir sede ao organismo.
Resultado... fui o resto da viagem com uma contínua necessidade fisiológica de carácter líquido a incomodar-me, boca de tal modo seca que até as gengivas gretavam e o céu da boca estalava de agonia e, para ajudar, parecia que o meu estômago estava a andar no Twister da feira-popular com um esófago a pedir vómito . Com isto tudo, levei cerca de 4 semanas a chegar a Portimão.

Em Portimão, mais propriamente na Praia da Rocha, reparei nalguns promenores curiosos: A Rainha do Artesanato vendia raquetes da "Costa Del Sol" e estava cheia de bolas e baldes, em plástico ordinário, com figuras alusivas aos Pokemon para a criançada levar para a praia; Índios da América Central criteriosamente ornamentados como os índios da América do Norte a tocar músicas do Richard Clayderman e dos Modern Talking em versão Chill-Out que mais parecia um midi desses que se encontram espalhados por essa internet fora; Por fim... lembro-me de um restaurante algarvio típico eu que o prato do dia ao longo de vários dias da semana e ao longo de várias semanas, foi sempre lombo de porcom assado com esparguete e ketchup (há quem prefira a salada, em vez do ketchup, como acompanhamento). De salientar a tradução para um inglês fluente - "assed pig meat with bolonoise sparghetti". Pronto... a tradução já foi invenção minha.

E assim termino o post que comemora o primeiro aniversário... reformulei o aspecto do blog, que agora tem uma foto tirada por mim. Pode não estar tão bem "arrumado" como o outro, mas foi feito em grande parte por mim, não há desculpa para aparecer outro igual.
Todo o assunto que aqui foi tratado, tal como nos anteriores posts, é sério e com profundos interesses políticos e económicos para a nação... ou então não!
Agradeço profundamente aos que tiveram paciência para ler isto tudo até ao fim, se tivesse tempo teria escrito ainda mais, e sobretudo a quem lê o blog regularmente e o comenta ainda que pessoalmente.